Em pouco mais de três anos Irandhir Santos participou de dez produções e ganhou sete prêmios. Se você ainda não o conhece prepare-se: ele será uma das estrelas de Tropa de Elite 2, o longa mais aguardado do ano, que estreia no próximo mês
Revista GOL, matéria de capa, edição #102, novembro/2010
Por Daniela de Lacerda, Fotos Claus Lehmann

O ator durante o ensaio para a revista da Gol nas ruas do Recife Antigo, na capital pernambucana
Presídio em ebulição, Beirada, personagem interpretado por Seu Jorge, esbraveja: “Vocês engordaram o porco, agora nóis vai assá” (sic). Corta para um bate-boca entre Irandhir Santos e Wagner Moura. O primeiro quer entrar. O outro quer que ele peça para sair. Irandhir peita o outrora Capitão, agora Coronel Nascimento: “Minha entrada foi autorizada pelo seu chefe. E eu vou entrar”. Um dos trailers de Tropa de Elite 2 deixa o embate em suspense até 8 de outubro, data de estreia do filme mais aguardado do ano, orçado em R$ 12 milhões e com 600 cópias a serem distribuídas nos cinemas do país. No set, quem acompanhou o duelo entre Nascimento, novamente interpretado por Wagner, e o ativista de direitos humanos Diogo Fraga, vivido por Irandhir, ficou impressionado. “O último dia de trabalho foi o mais emocionante de todos esses anos. A verdade que vi naqueles dois… Totalmente entregues ao projeto… Fiquei muito, muito emocionada”, diz a preparadora de elenco Fátima Toledo, que tem Pixote, Central do Brasil, Cidade de Deus, Tropa de Elite, Linha de Passe, entre tantas outras produções na bagagem.
Se em 2007 o primeiro Tropa de Elite (mais de 2 milhões de espectadores no cinema e outros muitos milhões na pirataria) foi um marco na carreira de Wagner, o segundo promete ser um divisor na de Irandhir, consolidando um momento especialmente produtivo para o ator. Em pouco mais de três anos, desde que despontou como Quaderna em A Pedra do Reino (minissérie exibida na Globo e dirigida por Luiz Fernando Carvalho), de 2007 também, Irandhir fez dez filmes e ganhou sete prêmios. Só em 2010, esteve em Olhos Azuis (José Joffily), Quincas Berro d’Água (Sérgio Machado), Viajo porque Preciso, Volto porque Te Amo (Karim Aïnouz e Marcelo Gomes) e Azul (curta de Eric Laurence). Até o fim do semestre, está envolvido em mais duas produções: O Som ao Redor (Kleber Mendonça Filho) e A Febre do Rato (Cláudio Assis). “Além de ter grande talento natural, o Irandhir é também um dos atores mais dedicados com quem já trabalhei”, afirma José Padilha, diretor de Tropa 1 e 2. “É um ator extraordinário. Um artista compenetrado, sensível, bom colega… Houve uma troca muito boa entre nós, ele é um cara que dignifica nossa profissão”, diz Wagner Moura.

Participar de um filme como esse (Tropa de Elite 2) é uma tomada de posição. Acredito na discussão que o filme propõe, são temas que devem ser debatidos - Irandhir Santos
RECIFE-RIO
No terraço de um hotel em Recife, numa tarde de folga, Irandhir fala do filme com um fervor tranquilo, aparente incoerência, nele tão natural. Descontraído, calça larga e camiseta, não levanta a voz, não recorre à largura dos gestos, não dá muito cabimento às expressões. Mas se emociona, passional. “Participar de um filme como esse é uma tomada de posição. Acredito nadiscussão que o filme propõe, são temas que devem ser debatidos. O Padilha faz algo magnífico que é aliar entretenimento ao debate sobre questões sociais. E acho isso primordial no cinema”, diz o ator. Diogo, seu personagem, um professor de história e defensor dos direitos humanos, bate de frente com a política de segurança pública do Rio de Janeiro. O tema é particularmente caro a Irandhir, que nasceu e fincou pé em Pernambuco, um dos Estados mais violentos do país. “Há um ponto em comum [entre Rio e Recife] que é essa questão de você atribuir às pessoas que não têm tantos recursos financeiros o foco da violência na cidade. Ele [Diogo] vem para dizer que não é por aí”, revela. “Nos ensaios, muitas vezes eu abria minha mente e dizia: ‘Meu Deus, a gente está falando do Rio, mas poderia muito bem ser a respeito do Recife’.”

Em sentido horário a partir da foto no alto, à esq.: Irandhir como o professor Diogo Fraga numa cena de Tropa de Elite 2; em Quincas Berro d’Água, de Sérgio Machado; com Branca Messina em Olhos Azuis, que lhe rendeu o prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival de Paulínia, em 2009; cena de Viajo porque Preciso, Volto porque Te Amo; como o jagunço Neco de Antonio em O Besouro; e em A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, na pele de Quaderna
DE VOLTA PRA CASA
A ligação com o quintal de casa é recorrente. Aos 32 anos, solteiro, Irandhir Gleriston Santos Pinto, pernambucano de Barreiros que se criou em Limoeiro, duas cidadezinhas do interior do Estado, viaja porque precisa. Mas volta. Porque ama a família, porque ama os amigos, porque ama o ritual de desconectar-se totalmente de um projeto para só depois entrar em outro. Nesses intervalos ritualísticos, refugia-se em Recife e em Limoeiro, onde senta na calçada da casa dos pais, Marcos e Helena, casados há 40 anos, e lembra do tempo em que era menino e parava de brincar para deixar passar os cortejos funerários que iam para o cemitério, no fim da rua da avó. “Num mesmo dia você vivia momentos felizes, alegres, e esses pequenos momentos de muita dor. Desenvolvemos uma postura de muito respeito em relação à morte”, conta Irandhir.

Naquela época, seu Marcos, que hoje comanda um grupo de seresta, bem que tentou fazer Irandhir, o mais novo dos três filhos, levar a música a sério. “Ele toca teclado, flauta transversa e flauta doce”, diz o pai. O passo seguinte seria o saxofone. Mas aí Irandhir já tinha se descoberto ator. Das peças na escola passou para os palcos de Recife, para onde se mudou no fim do colegial e onde cursou artes cênicas. Viajou pelo Brasil, cumpriu temporada em Portugal. Até que foi bater no set de um filme: Cinema, Aspirinas e Urubus (lançado em 2005), de Marcelo Gomes, o mesmo diretor que mais tarde o convidou para Viajo porque Preciso, Volto porque Te Amo. “Gravamos o texto umas 12 vezes. Às vezes ficávamos 8, 10, 12 horas no estúdio até chegar ao caminho mais correto. E ele nunca estava de mau humor, nunca reclamava. Sempre contribuía”, afirma Marcelo. “Ele disse uma coisa muito bonita sobre o filme, que ia dar emoção a um corpo sem corpo. Era exatamente isso.”

Acima, da esq. para a dir.: na escola, em Surubim (PE), num desfile cívico de 7 de Setembro; ainda na escola, mais velho, numa apresentação de teatro de bonecos; e pedindo a bênção do mestre Ariano Suassuna na época das filmagens de A Pedra do Reino
ATOR RARO
O peculiar e poético road movie já rendeu dois prêmios de melhor ator para um Irandhir que não aparece em cena. Só fala. Sente. Respira. “Marcelo e Karim me disseram: ‘A gente quer ouvir o coração dele [do narrador e personagem principal, um geólogo que viaja pelo sertão após uma desilusão amorosa]. Queremos carne, osso. Mesmo que não apareça’”, conta. “Quando vi as imagens… tomei um banho, sei lá, de saudade… É um filme pelo qual tenho um carinho muito grande. Passa muito próximo das coisas que vi e vivi.”
Para gravar, Irandhir foi atrás das memórias que guardou das tantas viagens que fez com a família Pernambuco adentro. A cada três ou quatro anos, o pai, gerente do Banco do Brasil, era transferido para outra cidade e começava tudo de novo com a mulher e os filhos. Destemido, seu Marcos. Traço que passou para o filho caçula. “Irandhir é um ator raro. Ele não cria obstáculos, pula no abismo”, diz Fátima Toledo. “Poucos se revelam assim.” Irandhir se entrega, porque apaixonado. E determinado. Mas às vezes engole pelo avesso. Treme a perna. Embrulha o coração. “Sempre tenho medo. Mas aprendi a lidar com isso de uma maneira positiva. Quando acontece é porque você está se desafiando. Se não, algo está estagnado.”
Esse salto no precipício acaba repercutindo entre a trupe que divide os filmes com ele. “No set de Tropa ele era o mais concentrado”, diz a atriz Maria Ribeiro, colega de elenco. “Existem atores que, quando surgem, nos fazem lembrar do divino da nossa profissão. Nunca mais esqueci da primeira vez em que vi Irandhir em Baixio das Bestas, de Cláudio Assis. Encho a boca pra dizer que tive o prazer de trabalhar com ele.” A atriz vai além: “Nós, atores comuns, queremos fazer trabalhos bonitos e, de preferência, com alguma repercussão. Irandhir não. Não o vejo se importar com a fama e com a frivolidade que acompanha nosso métier”.

De volta às origens, Irandhir visita o cinema São Luiz, no centro de Recife, local que costumava frequentar na adolescência
A VIDA DOS OUTROS
Irandhir costuma se enfiar com os dois pés em cada projeto de que participa. Durante os quase quatro meses de produção de Tropa de Elite 2 não deixou o Rio nem por um fim de semana, para não quebrar a imersão na história. “Ele é disciplinado, pesquisa a fundo o universo dos personagens, anota tudo num caderninho”, diz Sérgio Machado, que o dirigiu em Quincas Berro d’Água. Nas gravações de O Som ao Redor, em Recife, fez questão de ficar hospedado no bairro onde o filme estava sendo rodado, por onde fazia longas caminhadas, enveredando por ruídos e cheiros e descobrindo as pessoas do lugar. “Às vezes, você filma por 15 dias. É muito pouco tempo para viver uma vida. Tenho de ir atrás do máximo possível”, afirma. Foi por conta dessa possibilidade de reencarnar que ele se fez ator. “Me interessa ver como o outro vê, sentir como o outro sente. Acho fascinante viver outras coisas que não as minhas.”
Por essa razão, o personagem mais marcante da curta — ainda que intensa — trajetória de Irandhir nas telas é Quaderna, o homem de quatro facetas em uma só, criado pelo escritor Ariano Suassuna para A Pedra do Reino. “Li uma declaração dele [Irandhir] dizendo que a busca fundamental de Quaderna era a busca de Deus. Nessa hora eu vi que estava no caminho certo. Ele compreendeu muito bem o personagem”, diz Ariano Suassuna. O sertanejo que se acredita descendente do mítico rei português dom Sebastião fez Irandhir apertar ainda mais os nós já quase cegos que o atam a Pernambuco. “Quaderna busca suas respostas na sua raiz, na sua origem. E eu tomei aquilo pra mim.”

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