janeiro 30 2011

Recife respira cinema, diz homenageado em Tiradentes

Com 15 filmes no currículo, o ator pernambucano Irandhir Santos é um dos homenageados da 14º Mostra de Cinema de Tiradentes

Revista do Brasil, 30/01/2011
Por Carlos Minuano

irandhir-santosTiradentes – Com apenas cinco anos de carreira, o ator pernambucano Irandhir Santos, de 32 anos, é um dos homenageados na 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Apesar do pouco tempo de estrada ele tem no currículo 15 filmes – 13 longas e dois curtas.

O trabalho mais recente, segundo ele, foi o mais marcante. Santos é o deputado Diogo Fraga, de “Tropa de Elite 2″ – a maior bilheteria do cinema nacional. Outros dois filmes entram em cartaz esse ano, “Tatuagem” e “Lobo Atrás da Porta”.

A correria foi intensa durante o festival, conversas com amigos, diretores, produtores, filmes, homenagens. Ainda assim, Santos abriu espaço na agenda agitada de Tiradentes para falar com a Revista do Brasil.

O cinema pernambucano está cada vez mais forte, nos últimos quatro anos você fez 14 filmes, quantos foram com diretores de Pernambuco?

Mais que a metade. No caso do Cláudio Assis eu até repeti. Depois de “Baixio das Bestas”, fiz o “Febre do Rato”, no final de 2010, que é o terceiro longa dele. Acredito que isso tem haver com minha proximidade com os diretores e com acreditar nessa maneira nova de contar histórias que está surgindo por lá, o cinema pernambucano se voltou às suas raízes, isso tem impulsionado a produção audiovisual e uma nova linguagem que permite dialogar com qualquer público, do Brasil e do mundo. Faço parte desse movimento que está surgindo na cena pernambucana.

Você pode falar um pouco mais sobre essa nova cena de Pernambuco?

Você vai ao Recife, por exemplo, e tem lugares de exibição muito especiais, como a Fundação Joaquim Nabuco, bem coordenada pelo Kleber Mendonça. Existem vários lugares onde se encontram pessoas de cinema que geram debates e discussões interessantes. É como se a cidade respirasse cinema em seu ambiente natural, em seu habitat, em sua geografia.

Durante debate aqui em Tiradentes, um jornalista falou sobre os prós e contras da exposição excessiva em filmes e novelas, e citou Wagner Moura, protagonista em “Vips” e “Tropa de Elite 2″. Num ele comanda uma rebelião no presídio de Bangu, no outro, é o coronel Nascimento que reprime essa rebelião. Você, que fez 14 filmes em quatro anos, não tem medo do desgaste da imagem?

Não acredito na questão do desgaste, acho que o ator tem esse prazer, esse privilégio da transformação. A questão importante é a versatilidade em ser ator, encarar personagens diferentes e a cada um, ser outro. Acho que o cinema te dá essa possibilidade também, porque junto ao ator há outros profissionais altamente responsáveis por aquela fisicalidade que irá ficar na imagem. São excelentes figurinistas, maquiadores e isso te ajuda muito a criar uma persona diferente. Então, pelo contrário, acho que estar em várias produções significa que você tem a capacidade de ser outro.

Quais são suas apostas para 2011?

Eu citaria entre tantas obras que passaram aqui na Mostra de Tiradentes, mais de 120, mas quero ressaltar um ponto que considero determinante, tanto para Tiradentes quanto para a trajetória nacional do cinema mesmo. Estou falando dos documentários que estão vindo com uma grande força. Aqui na mostra Aurora, dos sete longas, cinco são documentários, todos muito fortes e peculiares na maneira de serem feitas.

Você destaca algum nome?

Mais do uma aposta faço uma reverência ao trabalho de ficção da cineasta Renata Ribeiro. Eu acompanhei o trabalho dela como diretora de arte em dois filmes que participei. Recentemente ela veio à frente dos projetos, como diretora, e tem desempenhado um trabalho fantástico.

Você pode citar alguns desses filmes?

Em Tiradentes, ela apresentou o filme “Praça Walt Disney”, produzido no ano passado. Foi a pré-estréia nacional. Aposto nessa diretora como uma forte criadora. Eu gosto bastante do Super Barroco, que foi o primeiro curta-metragem dela, onde a Renata faz a junção perfeita do que ela é como profissional na direção de arte.

Por quê?

Porque ela junta elementos onde o objeto no cinema tem tanta importância quanto o ator, a imagem, e ela faz isso de uma maneira brilhante unindo o ator aos objetos como personagens principais no filme Super Barroco. É muito interessante, a estética do filme salta aos olhos, mas está à mercê da história do filme. Muito pela experiência dela como diretora de arte e agora atrás diretamente das câmeras, como diretora, aposto muito na Renata.

***
Via Rede Brasil Atual

janeiro 28 2011

Confira entrevista com Irandhir Santos, um dos homenageados da Mostra de Cinema de Tiradentes

Oi FM, 28/01/2011
Por Thaís Pimentel

irandir

Um dos homenageados da 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes é o ator pernambucano Irandhir Santos.

A repórter Júlia Nogueira conversou com ele sobre o festival mineiro, a curta (e já celebrada) carreira no cinema que inclui filmes como “Tropa de Elite 2” e “Cinema, Aspirinas e Urubus” e os próximos trabalhos que vão chegar às telas. É só apertar o play.

Clique aqui para acessar a entrevista.

***
Via Oi FM

janeiro 26 2011

Talento de Pernambuco

Em festa por seu papel no sucesso Tropa de Elite 2, o ator homenageado em Tiradentes fala sobre a força do novo cinema pernambucano

irandhir-mostra

Brasileiros, 26/01/2011
Por Carlos Minuano*

“Está surgindo uma geração com muita força no novo cinema de Pernambuco”. Quem afirma é o ator pernambucano Irandhir Santos, um dos homenageados na 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Ele, aliás, é um exemplo da pujança dessa nova safra. Com poucos anos de carreira, já acumula sucessos, como os papeis em Baixio das Bestas, de Cláudio Assis, e o mais recente, Tropa de Elite 2, de José Padilha – maior público da história do cinema brasileiro. Confira trechos da entrevista que Santos concedeu à reportagem do site da Brasileiros.

Brasileiros – Nessa Mostra de Tiradentes tivemos mesas com a participação de até cinco diretores pernambucanos. De onde vem essa nova força do cinema de Pernambuco?
Irandhir Santos – De uns 10 ou 15 anos para cá, vem chegando uma turma com muita força para fazer essa arte. É o que percebo em conversas com diretores com os quais trabalhei, como Cláudio Assis. Sempre nos lembramos da dificuldade que era fazer cinema tempos atrás. Fazíamos na gana e na vontade.

Brasileiros – Que outros nomes você destaca dessa nova safra?
I.S. – Participei de projetos em Recife com diretores que são dessa geração mais recente, como Daniel Bandeira, Leonardo Lacca, que não tem tanto acesso a patrocínio, mas que tem, assim como o Cláudio Assis teve no início, essa força de vontade de fazer. O que eu posso entender disso é que o cinema pernambucano se voltou às suas raízes.

Brasileiros – Esse “regresso à raiz” está especialmente na direção?
I.S. – Está na maneira de dirigir, de escrever uma história, de tal forma que você se torna proprietário dela. Isso confere uma força tão grande que permite o diálogo com qualquer parte do Brasil e do mundo. É como se esses diretores atuais da cena pernambucana olhassem para sua terra e decidissem contar histórias de suas próprias vidas.

Brasileiros – Isso torna os filmes mais verossímeis?
I.S. – Isso os coloca (os diretores) bem próximos do que estão contando, de uma maneira tão profunda que as histórias se tornam comunicáveis em qualquer parte do mundo. Aí está o diferencial, nesse sentido. Acredito no cinema autoral, Pernambuco tem, de fato, um cinema autoral.

Brasileiros – Qual a diferença essencial entre o cinema autoral e o de mercado?
I.S. – A diferença está na generosidade, no ajudar de um com o outro. Quem faz cinema em Pernambuco conhece quem faz cinema e há essa colaboração mútua nas produções, na própria escrita do roteiro, na maneira de fazer. Pensar no cinema pernambucano é pensar em grupo. É claro que existem diferenças em cada mente ali, mas é um grupo.

*Colaborou Eduardo Fahl

***
Via Brasileiros

janeiro 20 2011

A estrela sobe

Tagged Under : , , ,

Entrevista: Irandhir Santos – Ator

Folha de Pernambuco, Caderno Programa, 20/01/2011
Por Luiz Joaquim

MAIS de 11 milhões de brasileiros viram Irandhir em “Tropa de Elite 2”

MAIS de 11 milhões de brasileiros viram Irandhir em “Tropa de Elite 2”

Quando a Mostra de Cinema de Tiradentes, em Minas Gerais, der partida às 21h de amanhã na sua 14ª edição, um jovem ator pernambucano, de 32 anos, será o foco de todas as atenções ao lado de Paulo César Saracene. O ator é Irandhir Santos, a quem, juntamente com o veterano cineasta carioca, a Mostra decidiu homenagear em 2011. Nada mais justo para este jovem do município de Barreiros que teve sua formação no teatro e fez do cinema um prolífero campo profissional, pelo qual seu prestígio só faz crescer. Em cinco anos, apareceu em dez projetos cinematográficos, que vão de introspectivos curtas-metragens, como “Décimo Segundo”, de Leo Lacca, até a maior bilheteria do cinema brasileiro, “Tropa de Elite 2: o Inimigo Agora é Outro”. Este, inclusive, selecionado para participar do próximo Festival de Berlim (10 de fevereiro).

Discrição é uma das palavras que ajudam a identificar Irandhir que, da Paraíba, conversou por telefone com a reportagem da Folha. Mas, ‘dedicação’, ‘profissionalismo’ e ‘talento’ são também algumas características atribuídas ao ator, por quem o dirigiu. Enquanto se prepara para Minas Gerais e para novos projetos, Irandhir nos falou como percebe essa homenagem, de seu critério nas escolhas dos papeis, do assédio da TV e no que ainda quer aprender no cinema.

Qual sua reação quando soube da homenagem em Tiradentes?

Foi estranho. Eu já tinha ouvido falar muito bem da Mostra de Tiradentes, mas não sabia exatamente do que se tratava. Eu estava dirigindo quando uma pessoa que trabalha comigo recebeu a ligação dizendo: “olha, você vai ser homenageado em Minas Gerais”. Para mim soou como o retorno das primeiras vozes que vieram a mim durante minha formação. Lembrei de meus professores de literatura, de arte, dizendo palavras de incentivo a cada trabalho que eles me recomendavam fazer. Dizendo para seguir em frente e que o caminho da arte era uma possibilidade. A notícia da homenagem foi como um eco dessas palavras, que vêm de longe em minha formação.

Você têm recebido mais propostas para trabalhar no cinema do que consegue dar conta? E como é seu critério ao aceitar um novo projeto?

Isso vem acontecendo des­de “A Pedra do Reino” (microsérie para a TV Globo dirigida por Luiz Fernando Carvalho em 2006, a qual Irandhir protagonizou). Entre outras coisas, a TV te mostra a um percentual de gente que trabalha com cinema, teatro e televisão mesmo. A partir dali, os convites têm surgido, mas estabeleci para mim coisas que me acrescentem como artista e pessoa. Eu tive a sorte de trabalhar com pessoas importantes que só somaram na minha formação. Eu venho de uma época em que, no meu Estado (Pernambuco), para aprender cinema, só se fosse fazendo, na prática, pois não havia cursos. E, sim, estabeleci alguns pontos determinantes quando penso num projeto. Acredito nos diretores que escreveram suas próprias histórias e tem seu olhar voltado para a sua raiz. Eles têm muita propriedade no que falam. A maneira como esse diretor vai contar a história também me interessa, assim como me interessa saber que personagem é esse que ele me oferece e como ele se encontra na história.

Certa vez, entrevistando Fernanda Montenegro, ela disse que um dos diretores que gostaria de ter trabalhado era Ingmar Bergman. E você, com quem ainda almeja trabalhar no cinema?

Olha, sem demagogia, eu trabalharia novamente com os diretores que já trabalhei. Isso tem muitos significados porque quando revejo os poucos passos que dei nesses anos, eu vejo o quanto esses diretores foram importantes em me modificar, e falo isso do ponto de vista pessoal. Eles me fizeram ser outro e encarar as pessoas de forma diferente.

Todos os diretores de cinema com quem falei a seu respeito, tendo trabalhado com você, são unânimes em elogiar sua simplicidade, dedicação, profissionalismo e talento. Ou seja, o Irandhir é um ótimo profissional, mas, no que o ator Irandhir a­cha que precisa melhorar?

Acho que nestes últimos quatro anos, eu trouxe muita influência do teatro para o cinema, o que me ajuda em muitos pontos. Mas ainda preciso ter uma longa caminhada na arte cinematográfica, com o que se pede dessa arte. Penso nos detalhes, que afinal são as grandes coisas, que ainda preciso descobrir. Trago referências do teatro no tempo da concentração – prática que ali é compreensível uma vez que se tem cerca de seis meses de ensaio. Já no cinema tudo é muito rápido, e aí você também vive um personagem. Tenho muito que descobrir da matemática de um set de cinema.

No Brasil, há fluxo quase natural dos atores revelados pelo cinema irem parar em telenovelas. Algum convite ou plano nesse sentido?

Já rolou convite. A TV Globo tem procurado e uma outra emissora também. A questão pra mim é que não acho que eu já tenha feito televisão. Aquele trabalho com Luiz Fernando (Carvalho) tinha um ensaio que parecia teatro, e era gravado parecendo cinema. Foi um projeto que ultrapassou os paradigmas da TV. Então tenho a sensação que não fiz TV. Quando converso com colegas que fazem TV, eles comentam do ritmo acelerado, quase industrial. Aí me pergunto, e o processo criativo? Eu, como ator, preciso de maturação para desenvolver minha atuação. Fico receoso com esse veículo. Não é que não faça TV por achar difícil; na verdade tenho curiosidade em me atrever e descobrir como eu reagiria ali. Mas meus planos agora são para o cinema.

Você viaja com “Tropa de Elite 2” ao Festival de Berlim (inicia 10 de fevereiro)?

Não, não vou. Preciso viajar e trabalhar num novo projeto.

E quais deles já pode anunciar?

Posso falar de dois. Um é o primeiro longa-metragem de Fernando Coimbra, que se chama “Lobo Atrás da Porta”. Nos conhecemos em Brasília ainda por ocasião de “Décimo Segundo”. Fernando concorria com o “Trópico das Cabras” e desde aquela época já conversamos sobre esse novo projeto. O outro convite, que é superespecial para mim, veio do Hilton Lacerda, que há um ano me chamou para fazer uma leitura dramática do “Tatuagem” (primeiro longa-metragem de ficção a ser dirigido, sozinho, por Hilton). No filme ele vai homenagear o pessoal do Grupo de Teatro Vivencial (dos anos 1970), com integrantes originais participando do filme, e isso me deixou muito feliz. O Hilton é responsável pela criação de muitos personagens importantes na minha vida. Fico feliz de poder contribuir no trabalho dele.

***
Via Folha de Pernambuco

novembro 28 2010

O mocinho do filme

Tagged Under : ,

Em pouco mais de três anos Irandhir Santos participou de dez produções e ganhou sete prêmios. Se você ainda não o conhece prepare-se: ele será uma das estrelas de Tropa de Elite 2, o longa mais aguardado do ano, que estreia no próximo mês

Revista GOL, matéria de capa, edição #102, novembro/2010
Por Daniela de Lacerda, Fotos Claus Lehmann

O ator durante o ensaio para a revista da Gol nas ruas do Recife Antigo, na capital pernambucana

O ator durante o ensaio para a revista da Gol nas ruas do Recife Antigo, na capital pernambucana

Presídio em ebulição, Beirada, personagem interpretado por Seu Jorge, esbraveja: “Vocês engordaram o porco, agora nóis vai assá” (sic). Corta para um bate-boca entre Irandhir Santos e Wagner Moura. O primeiro quer entrar. O outro quer que ele peça para sair. Irandhir peita o outrora Capitão, agora Coronel Nascimento: “Minha entrada foi autorizada pelo seu chefe. E eu vou entrar”. Um dos trailers de Tropa de Elite 2 deixa o embate em suspense até 8 de outubro, data de estreia do filme mais aguardado do ano, orçado em R$ 12 milhões e com 600 cópias a serem distribuídas nos cinemas do país. No set, quem acompanhou o duelo entre Nascimento, novamente interpretado por Wagner, e o ativista de direitos humanos Diogo Fraga, vivido por Irandhir, ficou impressionado. “O último dia de trabalho foi o mais emocionante de todos esses anos. A verdade que vi naqueles dois… Totalmente entregues ao projeto… Fiquei muito, muito emocionada”, diz a preparadora de elenco Fátima Toledo, que tem Pixote, Central do Brasil, Cidade de Deus, Tropa de Elite, Linha de Passe, entre tantas outras produções na bagagem.

Se em 2007 o primeiro Tropa de Elite (mais de 2 milhões de espectadores no cinema e outros muitos milhões na pirataria) foi um marco na carreira de Wagner, o segundo promete ser um divisor na de Irandhir, consolidando um momento especialmente produtivo para o ator. Em pouco mais de três anos, desde que despontou como Quaderna em A Pedra do Reino (minissérie exibida na Globo e dirigida por Luiz Fernando Carvalho), de 2007 também, Irandhir fez dez filmes e ganhou sete prêmios. Só em 2010, esteve em Olhos Azuis (José Joffily), Quincas Berro d’Água (Sérgio Machado), Viajo porque Preciso, Volto porque Te Amo (Karim Aïnouz e Marcelo Gomes) e Azul (curta de Eric Laurence). Até o fim do semestre, está envolvido em mais duas produções: O Som ao Redor (Kleber Mendonça Filho) e A Febre do Rato (Cláudio Assis). “Além de ter grande talento natural, o Irandhir é também um dos atores mais dedicados com quem já trabalhei”, afirma José Padilha, diretor de Tropa 1 e 2. “É um ator extraordinário. Um artista compenetrado, sensível, bom colega… Houve uma troca muito boa entre nós, ele é um cara que dignifica nossa profissão”, diz Wagner Moura.

Participar de um filme como esse (Tropa de Elite 2) é uma tomada de posição. Acredito na discussão que o filme propõe, são temas que devem ser debatidos - Irandhir Santos

Participar de um filme como esse (Tropa de Elite 2) é uma tomada de posição. Acredito na discussão que o filme propõe, são temas que devem ser debatidos - Irandhir Santos

RECIFE-RIO
No terraço de um hotel em Recife, numa tarde de folga, Irandhir fala do filme com um fervor tranquilo, aparente incoerência, nele tão natural. Descontraído, calça larga e camiseta, não levanta a voz, não recorre à largura dos gestos, não dá muito cabimento às expressões. Mas se emociona, passional. “Participar de um filme como esse é uma tomada de posição. Acredito nadiscussão que o filme propõe, são temas que devem ser debatidos. O Padilha faz algo magnífico que é aliar entretenimento ao debate sobre questões sociais. E acho isso primordial no cinema”, diz o ator. Diogo, seu personagem, um professor de história e defensor dos direitos humanos, bate de frente com a política de segurança pública do Rio de Janeiro. O tema é particularmente caro a Irandhir, que nasceu e fincou pé em Pernambuco, um dos Estados mais violentos do país. “Há um ponto em comum [entre Rio e Recife] que é essa questão de você atribuir às pessoas que não têm tantos recursos financeiros o foco da violência na cidade. Ele [Diogo] vem para dizer que não é por aí”, revela. “Nos ensaios, muitas vezes eu abria minha mente e dizia: ‘Meu Deus, a gente está falando do Rio, mas poderia muito bem ser a respeito do Recife’.”

Em sentido horário a partir da foto no alto, à esq.: Irandhir como o professor Diogo Fraga numa cena de Tropa de Elite 2; em Quincas Berro d’Água, de Sérgio Machado; com Branca Messina em Olhos Azuis, que lhe rendeu o prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival de Paulínia, em 2009; cena de Viajo porque Preciso, Volto porque Te Amo; como o jagunço Neco de Antonio em O Besouro; e em A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, na pele de Quaderna

Em sentido horário a partir da foto no alto, à esq.: Irandhir como o professor Diogo Fraga numa cena de Tropa de Elite 2; em Quincas Berro d’Água, de Sérgio Machado; com Branca Messina em Olhos Azuis, que lhe rendeu o prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival de Paulínia, em 2009; cena de Viajo porque Preciso, Volto porque Te Amo; como o jagunço Neco de Antonio em O Besouro; e em A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, na pele de Quaderna

DE VOLTA PRA CASA
A ligação com o quintal de casa é recorrente. Aos 32 anos, solteiro, Irandhir Gleriston Santos Pinto, pernambucano de Barreiros que se criou em Limoeiro, duas cidadezinhas do interior do Estado, viaja porque precisa. Mas volta. Porque ama a família, porque ama os amigos, porque ama o ritual de desconectar-se totalmente de um projeto para só depois entrar em outro. Nesses intervalos ritualísticos, refugia-se em Recife e em Limoeiro, onde senta na calçada da casa dos pais, Marcos e Helena, casados há 40 anos, e lembra do tempo em que era menino e parava de brincar para deixar passar os cortejos funerários que iam para o cemitério, no fim da rua da avó. “Num mesmo dia você vivia momentos felizes, alegres, e esses pequenos momentos de muita dor. Desenvolvemos uma postura de muito respeito em relação à morte”, conta Irandhir.

entrevista-gol-04

Naquela época, seu Marcos, que hoje comanda um grupo de seresta, bem que tentou fazer Irandhir, o mais novo dos três filhos, levar a música a sério. “Ele toca teclado, flauta transversa e flauta doce”, diz o pai. O passo seguinte seria o saxofone. Mas aí Irandhir já tinha se descoberto ator. Das peças na escola passou para os palcos de Recife, para onde se mudou no fim do colegial e onde cursou artes cênicas. Viajou pelo Brasil, cumpriu temporada em Portugal. Até que foi bater no set de um filme: Cinema, Aspirinas e Urubus (lançado em 2005), de Marcelo Gomes, o mesmo diretor que mais tarde o convidou para Viajo porque Preciso, Volto porque Te Amo. “Gravamos o texto umas 12 vezes. Às vezes ficávamos 8, 10, 12 horas no estúdio até chegar ao caminho mais correto. E ele nunca estava de mau humor, nunca reclamava. Sempre contribuía”, afirma Marcelo. “Ele disse uma coisa muito bonita sobre o filme, que ia dar emoção a um corpo sem corpo. Era exatamente isso.”

Acima, da esq. para a dir.: na escola, em Surubim (PE), num desfile cívico de 7 de Setembro; ainda na escola, mais velho, numa apresentação de teatro de bonecos; e pedindo a bênção do mestre Ariano Suassuna na época das filmagens de A Pedra do Reino

Acima, da esq. para a dir.: na escola, em Surubim (PE), num desfile cívico de 7 de Setembro; ainda na escola, mais velho, numa apresentação de teatro de bonecos; e pedindo a bênção do mestre Ariano Suassuna na época das filmagens de A Pedra do Reino

ATOR RARO
O peculiar e poético road movie já rendeu dois prêmios de melhor ator para um Irandhir que não aparece em cena. Só fala. Sente. Respira. “Marcelo e Karim me disseram: ‘A gente quer ouvir o coração dele [do narrador e personagem principal, um geólogo que viaja pelo sertão após uma desilusão amorosa]. Queremos carne, osso. Mesmo que não apareça’”, conta. “Quando vi as imagens… tomei um banho, sei lá, de saudade… É um filme pelo qual tenho um carinho muito grande. Passa muito próximo das coisas que vi e vivi.”

Para gravar, Irandhir foi atrás das memórias que guardou das tantas viagens que fez com a família Pernambuco adentro. A cada três ou quatro anos, o pai, gerente do Banco do Brasil, era transferido para outra cidade e começava tudo de novo com a mulher e os filhos. Destemido, seu Marcos. Traço que passou para o filho caçula. “Irandhir é um ator raro. Ele não cria obstáculos, pula no abismo”, diz Fátima Toledo. “Poucos se revelam assim.” Irandhir se entrega, porque apaixonado. E determinado. Mas às vezes engole pelo avesso. Treme a perna. Embrulha o coração. “Sempre tenho medo. Mas aprendi a lidar com isso de uma maneira positiva. Quando acontece é porque você está se desafiando. Se não, algo está estagnado.”

Esse salto no precipício acaba repercutindo entre a trupe que divide os filmes com ele. “No set de Tropa ele era o mais concentrado”, diz a atriz Maria Ribeiro, colega de elenco. “Existem atores que, quando surgem, nos fazem lembrar do divino da nossa profissão. Nunca mais esqueci da primeira vez em que vi Irandhir em Baixio das Bestas, de Cláudio Assis. Encho a boca pra dizer que tive o prazer de trabalhar com ele.” A atriz vai além: “Nós, atores comuns, queremos fazer trabalhos bonitos e, de preferência, com alguma repercussão. Irandhir não. Não o vejo se importar com a fama e com a frivolidade que acompanha nosso métier”.

De volta às origens, Irandhir visita o cinema São Luiz, no centro de Recife, local que costumava frequentar na adolescência

De volta às origens, Irandhir visita o cinema São Luiz, no centro de Recife, local que costumava frequentar na adolescência

A VIDA DOS OUTROS
Irandhir costuma se enfiar com os dois pés em cada projeto de que participa. Durante os quase quatro meses de produção de Tropa de Elite 2 não deixou o Rio nem por um fim de semana, para não quebrar a imersão na história. “Ele é disciplinado, pesquisa a fundo o universo dos personagens, anota tudo num caderninho”, diz Sérgio Machado, que o dirigiu em Quincas Berro d’Água. Nas gravações de O Som ao Redor, em Recife, fez questão de ficar hospedado no bairro onde o filme estava sendo rodado, por onde fazia longas caminhadas, enveredando por ruídos e cheiros e descobrindo as pessoas do lugar. “Às vezes, você filma por 15 dias. É muito pouco tempo para viver uma vida. Tenho de ir atrás do máximo possível”, afirma. Foi por conta dessa possibilidade de reencarnar que ele se fez ator. “Me interessa ver como o outro vê, sentir como o outro sente. Acho fascinante viver outras coisas que não as minhas.”

Por essa razão, o personagem mais marcante da curta — ainda que intensa — trajetória de Irandhir nas telas é Quaderna, o homem de quatro facetas em uma só, criado pelo escritor Ariano Suassuna para A Pedra do Reino. “Li uma declaração dele [Irandhir] dizendo que a busca fundamental de Quaderna era a busca de Deus. Nessa hora eu vi que estava no caminho certo. Ele compreendeu muito bem o personagem”, diz Ariano Suassuna. O sertanejo que se acredita descendente do mítico rei português dom Sebastião fez Irandhir apertar ainda mais os nós já quase cegos que o atam a Pernambuco. “Quaderna busca suas respostas na sua raiz, na sua origem. E eu tomei aquilo pra mim.”

entrevista-gol-07

***
Revista Gol: Download da matéria em PDF

outubro 04 2010

Entrevista com José Padilha, diretor de Tropa de Elite 2

Tagged Under : , ,

Cineasta diz que filma para provocar polêmica e animar discussões; tema agora é responsabilidade do Estado

Estadão, 06/04/2010
Por Luiz Carlos Merten

O público vai encontrar mais ação e violência no Tropa 2?

José Padilha (boné) dirige Seu Jorge, ao seu lado, em cena do filme

José Padilha (boné) dirige Seu Jorge, ao seu lado, em cena do filme

Essa seria a lógica das continuações, mas não fomos por aí. O primeiro roteiro era mais comercial, não porque quiséssemos ou procurássemos isso. O que filmei é o anti-comercial, mas também não foi liberado. Queria surpreender as pessoas e me surpreender. O filme tem grandes cenas de ação, mais espetaculares, talvez. Trouxemos especialistas de ação dos EUA, menos do que no Tropa, porque eu já havia aprendido bastante no primeiro filme e a equipe toda é muito afinada. O que importa aqui é o antagonismo entre Nascimento e Fraga. Disseram que eu era de esquerda ou direita no Ônibus e no Tropa 1. A dicotomia faz a força de Tropa 2, a serviço de uma discussão sobre o Estado, que é o que me interessa.

Não é arriscado assumir a própria distribuição?

A Zazen (empresa produtora de Padilha e Marcos Prado, seu sócio) inaugura um novo braço, o da distribuição. Juntamos à equipe um profissional experiente, Marco Aurélio Marcondes, com mais de 30 anos de mercado. A ideia é garantir nossa independência e procurar evitar o vazamento. Perdemos em aporte financeiro, que teríamos com as majors, mas estamos ganhando outras coisas. Espero provar a viabilidade de particulares investirem dinheiro próprio, e lucrarem com o cinema brasileiro.

Em todo canto desse set, só ouço falarem no Irandhir Santos como gênio. Por quê?

Ah, mas você vai ver. Porque ele é. Irandhir se joga no papel com intensidade. Ele se prepara muito. É um monstro, como o Wagner (Moura). E é ator. Ele chega aqui Irandhir, vai embora Irandhir, mas, quando ouve o “Ação!”, vira o Fraga. Você já teve um trailer. Há pouco, precisava só que ele se movimentasse em cena, para filmar o olhar do público que o seguia. Não adianta pedir menos. Ele veste a pele do personagem e vai fundo. Irandhir é um fenômeno.

***
Via Estadão / Crédito Foto

outubro 03 2010

Daiblog entrevista Irandhir Santos

Tagged Under : , , , , , ,

Daiblog, 02/06/2010
Por Michel Toronaga

O pernambucano Irandhir Santos interpreta Nonato, o corajoso emigrante brasileiro que encara Marshall, chefe da imigração americana em Olhos Azuis. O ator fez sua formação em artes cênicas na Universidade Federal de Pernambuco, do teatro ingressou na televisão, onde trabalhou na minissérie A Pedra do Reino. Sua estreia em longa metragem foi em Cinema, Aspirinas e Urubus, depois veio Baixio das Bestas, com o qual conquistou o Troféu Candango de melhor ator coadjuvante no Festival de Brasília de 2006. Em 2009 atuou no filme Besouro. Também fez o curta Décimo segundo e o longa Amigos de risco.

No inicio de 2010, pôde ser visto também como o protagonista do longa Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, de Karim Ainouz. Sua atuação em Olhos Azuis foi premiada no Festival de Paulínia, 2009. Em maio deste ano, Irandhir estreou também o filme Quincas Berro D´Água, adaptação para a cinema do livro de Jorge Amado. Atualmente, o ator está filmando Tropa de Elite 2. Leia agora uma entrevista com o ator falando sobre Olhos azuis.

Irandhir em Décimo segundo

Irandhir em Décimo segundo

Varias línguas
Minha formação foi em teatro, onde é possível experimentar mais. Em cinema é tudo corrido, mais matemático, tem que ter mais concentração. Repetir a mesma cena com a mesma intensidade, sem perder a emoção. Mas o maior desafio desse papel foi sem dúvida interpretar em inglês. Inglês sempre foi um problema, desde o tempo da escola. Porque não tinha motivação para estudar como deveria. Mas o engraçado é que eu sempre soube que um dia precisaria do inglês. Até que um dia liga a Helô (produtora do filme) e me convidada para interpretar o papel. Nesse momento ela diz: tem uma questão, você tem que interpretar em inglês. Então eu tive que voltar para a escola. Ela disse: você tem 3 meses para se preparar.

Se tive dificuldades no inglês no passado, por outro lado, sempre encarei os desafios da vida. Então pensei: em 3 meses o Nonato estará pronto. E assim foi, o aprendizado continuou durante a filmagem. No set, tive a ajuda do Joffily, do David Rache, da Erica Gimpel e do Frank Grillo, os atores americanos. Depois de alguns dias rodando, ensaiando o clima tomou conta do set, o inglês foi ganhando força e eu fui assimilando. Tem ainda o espanhol, o Nonato fala portunhol. Na verdade, na sala de espera da imigração existe uma tentativa de comunicação, as pessoas se comunicam de várias formas, há outras linguagens presentes ali, talvez até mais significativas do que a verborragia.

O ator em Quincas Berro D'água

O ator em Quincas Berro D'água

Cumplicidade
Calypso, a cubana que fica detida juntamente com Nonato e o outros latinos na ante-sala da imigração americana, é a personagem mais próxima do brasileiro. Os dois estão em situação parecidas, talvez para ela seja mais difícil, porque é a primeira vez que ela viaja para os Estados Unidos. Para Nonato é mais tranquilo, ele está mais preocupado com seu tempo. Ele quer aparentar ser um homem de negócios. Naquela sala ele encontra uma cumplicidade com Calypso. Às vezes não há palavras. Eu e Branca (Messina) que interpreta a Calypso, conversamos sobre isso, às vezes basta um olhar. O que vem dos outros personagens em relação ao Nonato são coisas muito desumanas. Os policiais estão atirando o tempo todo, são outros sentimentos, mas estes também ultrapassam a barreira da língua.



A construção de Nonato
A partir de uma palavra: emigração. Uma pessoa que vai sempre em frente, que se estabelece.Nonato saiu de Petrolina, superou dificuldades para ir até o Recife estudar história, depois vai para os Estados Unidos. Lá ele se estabeleceu, sempre seguindo em frente, trilhando um caminho reto. Até que chega uma pessoa e diz: pare por aí. Daqui você volta. Desconsidera todo o seu passado.

Ao lado de Branca Messina no drama Olhos azuis

Ao lado de Branca Messina no drama Olhos azuis

Dentro da bolsa que Nonato carrega está a filha,a mãe e a sua história. É difícil você abrir mão da sua história. Confesso que me detive no Nonato do aeroporto e em um passado que o motivasse a ir para os EUA. Mas tem o outro Nonato. Na imigração ele está constantemente preocupado, transpira, tem rugas na testa. Quando está no Recife é um Nonato relaxado, sorridente, seu tempo é mais devagar, observa, sente o clima, aproveita o sol, o mar, a filha.

No primeiro interrogatório, Nonato se expressa com um inglês perfeito. Mas à medida que vai sendo pressionado, seu inglês vai piorando. Sua emoção vai crescendo quando se sente atingido,aí retoma a língua mãe, o português. No momento da virada, precisa se fazer entender, então Nonato volta para o inglês perfeito. São várias trajetórias desse personagem.

Cena de Amigos de risco

Cena de Amigos de risco

Olhos Azuis fala do ser humano
A cor azul representa a memória. Para o Nonato e para mim também. Quando acordo, lembro dos meus sonhos com a cor azul. O meu passado também é azul. A cor está presente nos olhos de duas pessoas significativas na vida dele: o policial, esse monstro que diz, você não vai em frente e a filha, que é o há de mais precioso para ele. Duas pessoas com cores iguais em seu olhos, mas que trazem emoções totalmente diferentes. Marshall e Luiza. Como podem ser iguais e diferentes ao mesmo tempo? Estamos falando das mesmas pessoas.

Esse filme fala das mesmas pessoas, somos iguais, independente da cor, ou dos olhos, somos iguais. Pessoas iguais e diferentes. Muda-se a cor, mas os infortúnios são os mesmos. todos são iguais, as questões são as mesmas. Não é uma questão de país ou de cultura. É uma questão humana. Como lidar com os nossos infortúnios? Nonato volta a ser um animal, ao seu instinto de sobrevivência e defesa. Volta ao que todo homem tem, seja em que país for, independente da cor dos olhos, da cor da pele. Esse filme fala sobre o homem. São as conseqüências da vida.

Irandhir Santos em Besouro

Irandhir Santos em Besouro

Imagens e cores
Meu personagem tem uma câmera, então o fotógrafo do filme, Nonato Estrela, me perguntou: o que o seu Nonato filmaria? Acho que Nonato sai captando a imagem dos pés de sua filha, sua filha correndo, a praia de Boa Viagem, os momentos de carinho com Luiza.

Assisti a uma reportagem sobre segurança nos aeroportos e ali surgiu a ideia das cores. Para demonstrar os níveis de atenção, eles usam cores. Por exemplo, alerta laranja, alerta vermelho, etc. Eu peguei essa referência como guia das emoções das cenas que faria. Então tenho cenas amarelas e quando começa a incomodar passo para as cenas laranjas até chegar o “pega pra capar”, as cenas de vermelhas.

***
Via Daiblog

setembro 02 2010

Viajo porque preciso, volto porque te amo

Tagged Under : ,

Página do Cinema, 07/05/2010

viajo

Irandhir Santos revela a beleza do filme que ganhou o prêmio de melhor direção no Festival do Rio 2009

Irandhir Santos está em todas! Esse ano, o ator estrela quatro produções nacionais: “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, “Quincas Berro D’água”, “Olhos Azuis” e “Tropa de Elite 2”. Dando vida a personagens completamente distintos de uma maneira admirável, Irandhir vai conquistando cada vez mais seu espaço no cinema nacional. O pernambucano começou no mundo cinematográfico em 2005 com uma pequena participação no filme “Cinema, Aspirinas e Urubus”, quando pisou pela primeira vez em um set de filmagem. De lá para cá, já fez “Baixio das Bestas”, que lhe rendeu o prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival de Brasília, Quaderna, na série “A Pedra do Reino” e “Besouro”.

“Viajo porque preciso, volto porque te amo”, que estreia esta sexta, dia 7, garantiu o prêmio de melhor direção para Marcelo Games e Karim Ainouz. No longa, Irandhir narra a viagem feita pelo geólogo José Renato, que ao atravessar o sertão brasileiro percebe que o vazio, o abandono e o isolamento presentes nas paisagens também são características de sua personalidade naquele momento. O ator não aparece em nenhum momento na tela, apenas sua voz guia o espectador através das visões de José Renato. Nesta entrevista, Irandhir Santos fala sobre a importância deste longa em sua carreira, comenta a poesia que está presente em todo o filme e revela a emoção de trabalhar com Karim e Marcelo Gomes.

Como é atuar sem aparecer na tela? Foi um trabalho mais difícil que os demais?
Foi um grande desafio para mim porque não é apenas uma narração, é um personagem, e era preciso que isto estivesse impresso na voz. José Renato tinha que ter braços, pernas e coração apenas com a minha voz. Até então eu não tinha percebido a importância da voz para o ator até anular o meu corpo como foi neste projeto. Foi difícil, mas eu tive todo o apoio do Marcelo e do Karim, que foram apontando os caminhos.

Quem é José Renato?
O José Renato é chamado para estudar a geografia do sertão nordestino. Ele vai filmando e narrando as pedras e as vegetações até que começa a perceber que aquilo está influenciando diretamente o estado emocional dele. Aquilo é quase o espelho do abandono emocional que ele está vivendo. O personagem não aparece e isso facilita a intimidade do público com a obra porque você começa a imaginar esse cara de várias maneiras. Se eu aparecesse, talvez eu limitasse um pouco essa abertura de criatividade do público com a obra.

Como foi feito o trabalho de direção? Quais orientações que você recebia dos diretores?
O Marcelo me presenteou com o roteiro e pediu que eu lesse e gravasse livremente o que eu imaginava porque ainda não tinha visto as imagens. Quando eu pude vê-las, entendi o quão inspiradoras elas eram. As imagens são belíssimas, fortes, poéticas e tudo isso está presente no filme o tempo todo. Eu tive apenas um encontro separado com cada um deles e depois outro encontro com os três juntos para o resultado definitivo. Eram as próprias imagens que determinavam o caminho da minha voz.

Como você imagina o grande amor da vida deste personagem?
Tem um momento em que o José Renato está passando pela estrada e ele vê umas crianças tampando buracos na beira da rodovia. Nesse momento, ele encontra nos olhos de uma menina os olhos da mulher que ama. Eu não tinha mais nada de concreto para formatar a imagem na minha cabeça e no meu coração daquela mulher amada a não ser os olhos da criança. É um olhar forte, expressivo, inquietante. É uma cena em que a câmera está parada nos olhos dela e a sensação que dá é que aquele olhar atravessa a tela.

É a primeira vez que você trabalha com o Karim? Como foi a experiência?
Sou um grande admirador das obras do Karim, desde “Madame Satã” e “O Céu de Sueli”. Adoro os filmes como obras e já tinha ouvido falar muito bem dele. Uma grande surpresa pra mim foi ter contato com a pessoa Karim, aí eu pude comprovar que, além de ser um diretor fantástico, ele é uma pessoa extraordinária, sensível e simples. Ele usa as minúcias de seus sentimentos para dirigir seus trabalhos.

Você acha que foi um trabalho solitário?
Para mim, como ator, acho que não porque estavam comigo o Marcelo e o Karim. Mas quando penso como personagem, acho que sim e era preciso ter isso. Ele é um homem que viaja sozinho e reencontra na viagem o espelho da sua vida atual. Era preciso haver solidão para encarar ele mesmo.

Como você classifica este filme na sua carreira?
É uma pérola, um mimo, uma jóia que vou guardar pelo resto da vida. É um filme de muito valor para mim artisticamente e emocionalmente falando.

***
Via Página do Cinema

setembro 02 2010

Irandhir Santos: Ator comenta a sua atuação em quatro estreias nacionais em 2010

Tagged Under : ,

Página do Cinema, 07/05/2010

Os fãs de Irandhir Santos podem comemorar! Além de estar em quatro filmes nacionais este ano, o ator já está se preparando para começar a filmar o novo longa de Cláudio Assis, que terá o título de “Febre do Rato”. Com vasta experiência no teatro, o pernambucano confessa que está com saudade do palco e pensa em voltar logo para sua plateia. Enquanto isso não acontece, Irandhir está trabalhando muito para lançar os filmes “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, “Quincas Berro D’água”, “Olhos Azuis”, pelo qual ganhou o prêmio de ator coadjuvante no Festival de Paulínia, e “Tropa de Elite 2”, onde viverá um embate com Capitão Nascimento, personagem de Wagner Moura. Neste bate-papo, o ator conta detalhes sobre cada um destes projetos.

Esse ano você está em quatro filmes, um totalmente diferente do outro. Foi uma escolha sua atuar em produções de estilos tão distintos?
As coisas acontecem não é à toa, eu acredito muito nisso. Os projetos de cinema na minha vida tem surgido antes de mais nada para me ensinar a ser uma pessoa e um artista melhor. Os projetos vão surgindo e me transformando. Eu não escolhi propositalmente que cada produção fosse diferente da outra, mas existem coisas que eu considero antes de aceitar um trabalho como a história que quer ser contada, por quem quer ser contada e quem são os personagens. Os projetos surgem para dar sentido à minha vida. Esses personagens são muito diferentes, mas dizem respeito à minha vida, sem dúvida alguma.

Em algum momento as filmagens destes longas coincidiram?
Não, eu não gosto de misturar os trabalhos, preciso de um tempo para cada projeto. Mergulhado em um projeto eu fico nele até o fim.

Como você separa cada personagem da sua própria personalidade?
Eu empresto a ele a minha vida para que eles tomem vida e acredito que eles também trazem muito deles para mim me ensinando a reviver. Eu me sinto diferente a cada trabalho. Eu costumo trabalhar muito com anotações. Para cada personagem, eu construo um caderno que é como se fosse uma extensão física daquilo que eu construo essencialmente. Os caderninhos são a maneira física que eu tenho de tocar o meu personagem, já que o ator trabalha muito com a essência. Você constrói a alma e sentimentos que não são coisas palpáveis. Isso me ajuda principalmente no cinema porque as cenas são gravadas sem uma ordem certa, então para ter a clareza da continuidade do personagem eu uso os caderninhos. Eu concluo cada projeto fechando estes cadernos.

A Fátima Toledo é sua fã assumida. Como é trabalhar com ela?
A Fátima tem um papel essencial na história do cinema brasileiro. Eu acho muito interessante o método que ela usa de o ator ter o tempo de maturação da obra. Na imagem que eu tenho da Fátima na minha cabeça ela está sempre com dois objetos nas mãos: um martelo e uma cola. A cada trabalho que eu faço com ela, ela quebra tudo que eu era antes e recola o que é necessário para aquela obra específica. A Fátima ajuda o ator a estabelecer a base física e emocional necessária para iniciar o trabalho. Amo, admiro e gosto muito como pessoa.

Quais foram os desafios de viver as personagens de “Viajo porque preciso”, “Quincas”, “Olhos Azuis” e “Tropa de Elite”?
O desafio está em você morrer para que nasçam esses personagens e depois em se reconstruir. O ator se coloca como uma página em branco para ter novos traços, novos caminhos, acho que está aí o prazer. É como se você pudesse viver várias vidas na mesma encarnação. Cada personagem deste tem especificidades, características e trajetórias e me interessa como ator e como pessoa conhecer isso, só que para conhecer, eu tenho que ser.

Em “Olhos Azuis” você precisou atuar em inglês. Como foi a experiência?
Foi desafiante porque eu não tenho a fluência do inglês, apenas o conhecimento da língua. O meu personagem vivia há dois anos nos Estados Unidos e precisava de uma fluência de rua e não de quem teve aulas para ir pra lá. O Joffily teve a compreensão de que eu precisava de um tempo para estudar e professores de um curso do Recife me ajudaram muito também.

Você esperava ganhar o prêmio de melhor ator coadjuvante por este papel no Festival de Paulínia?
Fiquei muito feliz porque ainda não tinha visto o filme e assisti pela primeira vez no Festival. Foi muito prazeroso. Como diz Fernanda Montenegro, eu já me sinto premiado por poder exercer a minha profissão, mas receber este prêmio em Paulínia foi muito emocionante.

Como você construiu o Cabo Martim de Quincas? Foi o personagem mais divertido de todos?
A sensação que eu tive em construir o Cabo Martim é que, pela primeira vez, eu não construí um único personagem. A interação entre os quatro amigos de Quincas era necessária, é como se um personagem fosse formado pelos quatro. A característica do Cabo Martim para fazer parte de um grupo maior era a liderança, já que, com a morte do Quincas, aquele corpo perdeu a cabeça pensante e o Martim toma esta iniciativa. Ao mesmo tempo que não quer deixar a peteca cair, ele é o que mais está sofrendo com a morte de Quincas e está agindo daquela maneira para evitar aceitar a morte.

Como é viver o antagonista do Capitão Nascimento?
O Diogo Fraga vem para dizer não a uma estrutura de política e de segurança pública vigente no estado do Rio. É uma postura de repressão, de criminalização da pobreza, de resolver os problemas através da violência e ele acha que não é desta forma que se resolve. Tráfico é crime, mas a polícia também é um problema a partir do momento em que ela vem para matar. O índice de morte através das ações policiais é alto e isso não pode passar desapercebido. O Fraga vem para dizer isso, então quem for a favor, vai se identificar com ele. Se o Nascimento estiver contra este pensamento, então realmente vai haver um embate, mas não é nada pessoal.

Como foi entrar para o Tropa 2?
Foi maravilhoso. É um time vencedor, de primeiríssima qualidade, com profissionais admiráveis. Eu fiquei ainda mais apaixonado fazendo o filme. O Padilha é excelente, é maravilhoso no que faz. É um diretor que acredita e confia no ator. Ele tem tanta confiança que você se joga, se atreve. Ele se torna um parceiro. Padilha é um dos grandes diretores com que eu trabalhei e quero trabalhar mais vezes.

Este ano você será a cara do cinema nacional. Qual a expectativa para a estreia destes filmes?
As estreias coincidiram. Eu aprendi a lidar com as expectativas internas e as externas eu tento não alimentá-las ou torná-las o mais saudável possível. Eu espero que as pessoas gostem das histórias e se isso acontecer eu vou estar muito feliz. É um ano especial na minha carreira porque pela primeira vez eu vou compartilhar várias histórias em pouco tempo.

Você já está envolvido em novos projetos?
Estou voltando a trabalhar com o Claudio Assis. Estarei no próximo filme dele que se chamará “Febre do Rato” e, depois de três anos longe dos palcos, existem projetos para eu voltar ao teatro.

***
Via Página do Cinema