26, janeiro 2011

Talento de Pernambuco

Em festa por seu papel no sucesso Tropa de Elite 2, o ator homenageado em Tiradentes fala sobre a força do novo cinema pernambucano

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Brasileiros, 26/01/2011
Por Carlos Minuano*

“Está surgindo uma geração com muita força no novo cinema de Pernambuco”. Quem afirma é o ator pernambucano Irandhir Santos, um dos homenageados na 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Ele, aliás, é um exemplo da pujança dessa nova safra. Com poucos anos de carreira, já acumula sucessos, como os papeis em Baixio das Bestas, de Cláudio Assis, e o mais recente, Tropa de Elite 2, de José Padilha – maior público da história do cinema brasileiro. Confira trechos da entrevista que Santos concedeu à reportagem do site da Brasileiros.

Brasileiros – Nessa Mostra de Tiradentes tivemos mesas com a participação de até cinco diretores pernambucanos. De onde vem essa nova força do cinema de Pernambuco?
Irandhir Santos – De uns 10 ou 15 anos para cá, vem chegando uma turma com muita força para fazer essa arte. É o que percebo em conversas com diretores com os quais trabalhei, como Cláudio Assis. Sempre nos lembramos da dificuldade que era fazer cinema tempos atrás. Fazíamos na gana e na vontade.

Brasileiros – Que outros nomes você destaca dessa nova safra?
I.S. – Participei de projetos em Recife com diretores que são dessa geração mais recente, como Daniel Bandeira, Leonardo Lacca, que não tem tanto acesso a patrocínio, mas que tem, assim como o Cláudio Assis teve no início, essa força de vontade de fazer. O que eu posso entender disso é que o cinema pernambucano se voltou às suas raízes.

Brasileiros – Esse “regresso à raiz” está especialmente na direção?
I.S. – Está na maneira de dirigir, de escrever uma história, de tal forma que você se torna proprietário dela. Isso confere uma força tão grande que permite o diálogo com qualquer parte do Brasil e do mundo. É como se esses diretores atuais da cena pernambucana olhassem para sua terra e decidissem contar histórias de suas próprias vidas.

Brasileiros – Isso torna os filmes mais verossímeis?
I.S. – Isso os coloca (os diretores) bem próximos do que estão contando, de uma maneira tão profunda que as histórias se tornam comunicáveis em qualquer parte do mundo. Aí está o diferencial, nesse sentido. Acredito no cinema autoral, Pernambuco tem, de fato, um cinema autoral.

Brasileiros – Qual a diferença essencial entre o cinema autoral e o de mercado?
I.S. – A diferença está na generosidade, no ajudar de um com o outro. Quem faz cinema em Pernambuco conhece quem faz cinema e há essa colaboração mútua nas produções, na própria escrita do roteiro, na maneira de fazer. Pensar no cinema pernambucano é pensar em grupo. É claro que existem diferenças em cada mente ali, mas é um grupo.

*Colaborou Eduardo Fahl

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Via Brasileiros

                                                           

25, janeiro 2011

Quem brilhou na festa foi o ator pernambucano Irandhir Santos

Brilho 1

Quem brilhou na festa foi o ator pernambucano Irandhir Santos, um dos homenageados da noite. Em quatro anos, ele fez nada menos que 15 filmes, vários deles ainda inéditos. Na conversa com jornalistas e público no dia seguinte, contou com se prepara para os papéis e recebeu elogios de alguns diretores presentes na mesa e com quem ele trabalhou, entre eles, Cláudio Assis e Kleber Mendonça.

Brilho 2

Cláudio Assis, com seu jeito peculiar de distribuir afetos, elogiou Irandhir, com quem trabalhou em Baixio das Bestas e A Febre do Rato (inédito), dizendo que se existe uma “raça ruim” é a do ator, mas que teve sorte de contar com Irandhir em seus filmes. “Ele é doido, ele não tem juízo”.

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Via RAC

                                                           

24, janeiro 2011

Nem Deus nem o Diabo

Luiz Carlos Merten, 24/01/2011

TIRADENTES – Cá estou no meu quarto dia na Mostra de Tiradentes e não tenho informado muito – nada – vocês sobre o que está ocorrendo. A menina dos olhos da mostra é a seção Aurora, com curadoria de Cléber Eduardo, que começa hoje à noite e vai até sexta. No sábado, ocorre a premiação. Na sexta passada, a mostra homenageou Paulo Cézar Saraceni e Irandhir Santos e exibiu a pré-estreia nacional de ‘O Gerente’, que Saraceni adaptou de Carlos Drummond de Andrade. Não gostei muito do filme – achei sua estética mais à retaguarda do que à vanguarda -, mas ele tem cenas magníficas. A recriação do poema ‘E agora José?’, um clipe de João Gilberto. No sábado e domingo, além dos primeiros debates, tivemos as mostras Olhares e Vertentes, que exibiram filmes como ‘Avenida Brasília formosa’, de Gabriel Mascaro, e ‘Cortina de Fumaça’, de Rodrigo Mac Niven. Apesar de ser homônimo do filme de Wayne Wang com Paul Auster, esse ‘Cortina de Fumaça’ é um documentário engajado na causa da descriminalização das drogas. Nada mais contra a corrente dos discursos que ouvimos ultimamente, até como justificativa para a invasão dos morros do Rio. Cientistas destroem falácias sobre a maconha como porta de entrada para drogas pesadas e o próprio Fernando Henrique Cardoso, que se apresenta como sociólogo e ex-presidente, advoga pela descriminalização e diz que as consequências disso vamos ter de ver depois. ‘Cortina de Fumaça’ fez a maior sensação e foi aplaudido de pé pelo público que, horas antes, também aplaudira de pé “Tropa de Elite 2′, de José Padilha, na homenagem a Irandhir Santos. Por paradoxal que pareça, não é tão difícil de entender assim. O documentário de Mac Niven tem uma pegada espetacular, à Errol Morris, e o filme de Padilha é cinema de tempos fortes. Ontem, tivemos mais um filme nesta pegada, ‘VIPs’, de Toniko Mello, que venceu o Festival do Rio. Gostei mais do que da primeira vez em que o vi e participo hoje da discussão, na mesa com o diretor. Cinema de mercado versus cinema de pesquisa, como é a tônica da mostra Aurora. Mesmo que seja incompleto – o próprio diretor definiu-o como ‘esboço de um filme’ -, gostei de ‘Avenida Brasília Formosa’, que se constrói nos limites do documentário e da ficção. Sou aberto à experimentação, mas nunca me fecho ao ‘mercado’. Nem sou louco. Há mais ousadia e experimentação em filmes de grande espetáculo como os de Christopher Nolan e David Fincher do que em muito filme miúra. O mundo e o cinema mudaram muito, mas me lembro dos meus verdes anos, quando tentava harmonizar Don Weiss e Riccardo Freda com Michelangelo Antonioni, para desespero do (P.F.) Gastal, o crítico oficial da época, no Rio Grande do Sul. Gastal rezava pela cartilha de Buñuel, de Bergman. Eu ousava dizer que ‘Hajji Baba’ e ‘As Sete Espadas do Vingador’ eram tão bons e até melhores. Nunca consegui fazer essa divisão entre cinema de arte e comercial, entre experimentação e mercado. Seguir uma ou outra dessas tendências não garante a ninguém o céu nem o inferno. Há bons, grandes filmes (até como experimentação) de mercado e existem obras experimentais que não valem o celulóide ou digital que foi gasto.

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Via Luiz Carlos Merten

                                                           

23, janeiro 2011

Irandhir Santos, ator de corpo inteiro

Pipoca Moderna, 23/11/2011
Por Marcelo Miranda

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TIRADENTES Convocado para interpretar um bêbado no filme “Baixio das Bestas”, o ator Irandhir Santos se viu num impasse. Abstêmio, não sabia como encarnar o personagem de maneira autêntica. Certo dia, arriscou-se a participar de uma festa típica da Zona da Mata pernambucana, na qual dançou o maracatu rural. Bastaram dez minutos de intensos remelexos para Irandhir sair de lá com outra energia. Dali em diante, sempre antes do diretor Cláudio Assis gritar “ação!” nas filmagens de “Baixio das Bestas”, Irandhir pedia alguns minutos, subia um morro e, sozinho e sem música, dançava o maracatu rural. Ao voltar para o set, conseguia encarnar o bêbado.

São de processos assim, meio fora das “regras”, que se caracteriza o trabalho de Irandhir Santos. “Busco não apenas a arte da interpretação, mas também a tentativa de ser um coautor do projeto junto com o realizador”, afirma ele. “É uma nova postura possível ao ator numa época em que se permite maior tempo de preparação e maturação para a ‘persona’ que você constrói em cena”.

Aos 33 anos, este pernambucano criado em Limoeiro e formado em artes cênicas no Recife está sendo homenageado na 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que segue até o dia 29.

Com apenas quatro anos de carreira nas telas – estreou no cinema em 2005 na sua terra natal, com “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes – , Irandhir já acumula trabalho com 15 cineastas. Tornou-se conhecido por centenas de pessoas ao ser um dos protagonistas de “Tropa de Elite 2?, assistido por 11 milhões de espectadores no ano passado. Mas, antes de encarnar Fraga, o ativista de direitos humanos que se torna deputado, Irandhir caminhou – e segue passo a passo – numa seara de risco e autoralidade.

Tímido e de fala mansa, Irandhir tem fatores definidores para suas escolhas profissionais. “Faço algumas perguntas ao escolher um projeto: que história é aquela que se quer contar? Que diretor é esse? Que personagem é esse?”, enumera. Também é preponderante a natureza da produção. “Gosto daqueles cineastas que fazem os filmes sem dinheiro algum e, mesmo assim, vão em frente”.

Ele teve várias experiências nesse sentido, a mais forte delas em “Amigos de Risco”, do conterrâneo Daniel Bandeira e na qual Irandhir passava quase o filme inteiro sendo carregado por outros dois personagens após uma overdose de cocaína.

Vindo do teatro, ele sabe que o corpo é elemento primordial na construção cênica, indo muito além de firulas com rosto ou expressão facial – e o uso do maracatu rural em “Baixio das Bestas” deixa essa amplitude bastante clara.

“O corpo é um incentivo à minha criação, mesmo quando ele é anulado, no caso de ‘Amigos de Risco’”, destaca.

Irandhir também teve experiência quase transcendental ao retirar o próprio corpo de cena em “Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo”, de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes. No filme, ele faz um personagem fisicamente ausente. “Ali, eu perdi minha ferramenta de trabalho”, relembra Irandhir. “Por outro lado, descobri a voz como algo possível de ter pernas, braços, sentimentos e coração”.

Outra maneira de Irandhir mergulhar nas vidas de quem ele interpreta é se permitir ocupar os espaços que irá circular nas filmagens. Para “O Som ao Redor”, longa ainda em processo de montagem do pernambucano Kleber Mendonça Filho, ele mudou-se para o bairro recifense de Setúbal, onde se ambienta o enredo. Para “Febre do Rato”, novo de Cláudio Assis e ainda inédito, deixou-se imbuir da urbanidade que marca o filme.

Ao concluir cada projeto, Irandhir Santos não abre mão de um ritual: voltar a Limoeiro, onde cresceu, e conviver com a família. “É a forma de recarregar as energias e só depois voltar para viver alguma outra vida”.

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Via Pipoca Moderna

                                                           

23, janeiro 2011

Os cavaleiros existentes

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Na fábula de Italo Calvino, uma armadura vazia esconde o protagonista invisível. Na servidão contemporânea, o fardamento camufla a identidade de nossos heróis cotidianos

Diario de Pernambuco, 23/01/2011
Por Guilherme Carréra e Luís Fernando Moura

Seis vezes por semana, ele é um dos 2 mil garis que circulam na cidade do Recife, todos idênticos. Há 13 anos ingressa no serviço às 14h30 e só sai às 23h, quando quase não restaram rostos no centro da cidade. Os domingos de expediente, mensais, somam mais oito horas de jornada. Seu papel é, a cada turno de trabalho, transitar pela conturbada Avenida Conde da Boa Vista e retornar pela Rua Manoel Borba, coletando qualquer dejeto que encontre pelo passeio, além de esvaziar as menosprezadas lixeiras. Já criou costume: poucos verão seu nome através da opaca farda. Só ao chegar em casa ele vai se despir, olhar o canto que resta no espelho e enxergar um homem de 45 anos e diferente de todos os outros, batizado de José Rogaciano Leandro.

Não antes da viagem diária de volta, porém. O trajeto é o longo e último embate do papel como gari: custa cerca de uma hora até alcançar a residência em Pontezinha, no município de Cabo de Santo Agostinho. O funcionário permanece solitário, acomodado num canto do ônibus, enquanto os outros passageiros preferem seguir em pé a sentar ao seu lado, mesmo que aquele seja o último assento do corredor. Ninguém quer a companhia inóspita do homem do lixo.

Para contar a história de quase invisíveis como José, Aurora inverteu os papéis. Convidamos quatro artistas para posar para um ensaio fotográfico com as fardas que geralmente escondem quem as usa diariamente. A atriz Hermila Guedes aparece como camareira; o ator Irandhir Santos, como gari. Já o cantor João do Morro “incorporou” um ascensorista, enquanto a cantora Michelle Melo fez o papel de auxiliar de serviços gerais. Profissões que conhecemos bem, exercidas por gente que conhecemos pouco.

A nosso pedido, Hermila, Irandhir, João e Michelle emprestaram sua fama para chamar atenção para as caras que os uniformes costumam camuflar. E lembrar que, além do vestuário e mão de obra que geralmente nos limitamos a enxergar, existe uma rotina de infortúnios e alegrias. Vivida por profissionais como Conceição Rodrigues, José Rogaciano, Andeval Luiz Gonzaga e Danielle Silva, que talvez já tenham cruzado o seu caminho. Nesta edição, eles dividem seu dia a dia conosco. E posam ao lado dos artistas que os representam. Desta vez, sem farda. Como bem entendem a liberdade de ser quem se é. Os oito, famosos e
anônimos, são capa de Aurora neste domingo.

“tem gente que cospe quando passa pela gente”

No caso de José Rogaciano, mais de 40 mil olhares são desperdiçados por dia na Avenida Conde da Boa Vista. Na esquina com a Rua José de Alencar, onde a calçada hospeda a gigante loja Riachuelo e alguns fiteiros empilhados, ele estaciona com colegas para o lanche da tarde. “Às vezes, a gente ganha bolo, refrigerante”, conta. Antes do descanso, porém, faz pausa para falar com Aurora e afina o discurso com o colega Adriano Matias da Silva: “A gente tem dois benefícios. O primeiro é estar no trabalho, e não desempregado. O segundo é trabalhar todo dia pela própria cidade”. Repetir a trajetória diariamente é conhecer os ambientes de cor, entender o percurso das horas no centrão e, quem sabe, até fazer amigos. A maior dificuldade é o preconceito.

“Em tudo a gente é discriminado”, diz Rogaciano. É evento corriqueiro os passantes jogarem todo tipo de lixo ao lado dos funcionários. Mas esse é o exemplo mais brando. “Já me disseram: ‘Se eu não jogar no chão, você não tem trabalho’”, lembra Adriano. É daí pra pior: “Tem gente que cospe quando passa pela gente”, continua Rogaciano. “Ontem mesmo, uma mulher desviou de mim na Avenida Dantas Barreto e colocou a mão no nariz. Como se eu estivesse fedendo”. Reclamação? “Se for fazer, a gente vai terminar brigando com a
maioria”, diz, enquanto um transeunte joga uma bola de papel no lixo que ele carrega – e erra o alvo.

Os causos que atravessam o cotidiano de gente como Rogaciano e Adriano viraram parábola televisiva nos últimos anos. A história do psicólogo e professor universitário Fernando Braga da Costa promoveu a vida dos garis a espetáculo com happy ending quando a imprensa descobriu que o pesquisador, homem gabaritado da classe média paulista, vinha se vestindo com seus uniformes, a título de pesquisa, e enfrentando a rotina da profissão pelas vias paulistanas. O caso saiu no Fantástico, da Rede Globo, e foi publicada no livro Homens invisíveis: relatos de uma humilhação social (Editora Globo), no qual Fernando detalha e analisa a experiência de, por quase 10 anos, atuar com a limpeza da cidade, o que lhe empossou de um novo olhar político perante a sociedade. Você passa a se relacionar com pessoas e não com sujeitos profissionais”.

O texto segue seus passos ainda em 1994 até os primeiros anos da última década. Narra o estranhamento inicial por parte dos garis, que percebiam a presença de um intruso, bem como o transporte numa caçamba de caminhonete, como se os empregados fossem ferramentas, e o intervalo para o café, que bebiam numa lata de refrigerante partida ao meio. O narrador confessa, enfim, que naquele lugar aprendeu as coisas mais ricas da sua vida. Algo que José Moura Gonçalves Filho, seu orientador na Universidade de São Paulo (USP),
esmiúça no prefácio da publicação: “O que vemos e o que deixamos de ver, o regime de nossa atenção, é decidido segundo o modo como fomos colocados e nos colocamos em companhia dos outros”. Vestido de gari, Fernando não era reconhecido nem pelos colegas da universidade.

Por essas e outras lançou a tese do que chama invisibilidade pública, conceito no qual enquadra os profissionais que trabalham com limpeza. “Quanto mais subalterno o serviço e quanto mais mal remunerado é o sujeito, mais ele se torna invisível socialmente”, diz o psicólogo social a Aurora. “Na sociedade do trabalho, nós próprios somos confundidos com as premissas do nosso trabalho. Se você é identificado com as matérias que escreve, ele é identificado com o lixo que recolhe na rua. E nós não costumamos colher os detritos que deixamos pelo chão. Ou seja, quem trabalha com lixo está obviamente no pior lugar que poderia estar na sociedade”. A ideia chega a um extremo conceitual e treme as bases do próprio funcionamento democrático. “Você tem a sociedade se projetando ao longo da história, sempre fazendo uso da mão de obra dos trabalhadores pobres, sendo eles escravos ou não. De alguma forma, a classe hegemônica fabrica uma ideologia que faz com que a sociedade inteira acredite que, de fato, houve mudança, quando muitas vezes mudaram apenas alguns aspectos da servidão. O que os pobres conseguem conquistar é nada mais que a manutenção da própria sobrevivência, morando mal e comendo mal, e sem conseguir garantir outras chances a seus filhos”, afirma. “Existem avanços trabalhistas, mas parece que, se a medicina disser que podemos trabalhar 16 horas por dia, voltaremos à Revolução Industrial”.

Personificar dá medo

O que pode soar radical ganha ecos no que outros profissionais de limpeza pública, não muito longe da movimentada Boa Vista, confessam à reportagem. Na Estação Recife, que faz do bairro de São José ponto central de convergência das três linhas de metrô da Região Metropolitana, o funcionário Verlânio Neves
da Conceição, de vassoura em punho, reclama que “tem muito lixo”, enquanto varre, sem cessar, o imenso salão de acesso aos trens, cortado por passageiros apressados. São 15 minutos de silêncio e labor, até que o rapaz retorna e desabafa: “Quer saber mesmo? Se não tivesse lixo no chão, cortavam o quadro de
funcionários pela metade. E a gente, como ficaria?”

Andeval Luiz, que, aos 32 anos, é estrela da estação – garantem os colegas –, diz que “isso não é serviço para ninguém”. Prefere que, se for para jogar o lixo no chão, façam a sujeira na sua frente. “Assim eu estou vendo, é menos desrespeitoso. No começo você quer é brigar, mas depois vai entendendo que é assim mesmo que funciona, e não vai mudar”. Carpinteiro desistente, cultiva o sonho de partir dali pela rodovia, como motorista. “Mas, por enquanto, vou de trem. Só conheço o nome de três ruas da cidade”.

Quem faz a limpeza do metrô pernambucano se alterna para deixar as estações impecáveis, por isso o trabalho não cessa e as jornadas são cruzadas. Os empregados cumprem expediente de oito horas e folgam um dia a cada cinco, além de um domingo por mês. Ganham um salário mínimo e, por vezes, acumulam
empregos de ambulante ou zelador, como Severino Lopes dos Santos, que espera semanas para tirar uma folga simultânea dos dois locais de trabalho. “A gente gosta do trabalho porque é nosso emprego”, diz. Mas e do ofício? “Ruim com ele, pior sem ele”.

Não é que o ambiente profissional desagrade, pelo contrário. Enquanto almoçam um prato montanhoso de arroz, feijão e adjacentes, Severino e a colega Joseane Maria da Costa explicam que grupo coeso é sinal de bons ares. “A gente trabalha muito, mas se diverte, porque existe companheirismo. E quando a equipe é boa, é melhor”, diz a moça, que já recebeu lixo até na mão – “para você jogar fora”. Se o trabalho tem a sordidez da limpeza pública, os rostos costumam ser familiares no trajeto metroviário. Quem passa tem agenda
assinalada e ingressa nos mesmos horários. “Às vezes fazemos amigos. Tem até gente que chama pelo nome. E o “cliente” – enfatiza a relação – “está em primeiro lugar”. A coordenadora do Programa de Desenvolvimento de Carreiras da Fundação Instituto de Administração (FIA) e da Faculdade de Economia,
Administração e Contabilidade (FEA), da Universidade de São Paulo (USP), Tania Casado, afirma que a invisibilidade está profundamente vinculada ao que chama de desconexão social. “Se a pessoa acaba de varrer e alguém joga um papel na rua, é como se não visse o trabalho do outro, como se ele fosse nada”. Por
outro lado, a proximidade restaura a conexão entre duas pessoas a partir da personificação, ou seja, o movimento de mostrar ao outro, por sutilezas, o alguém que ele é. “Me parece que a não personificação é um mecanismo de defesa da sociedade. Se eu sei o nome do profissional de limpeza, é mais complicado
eu jogar o papel no chão”.

A novela do “bom dia”

O dilema do mais simples cumprimento é enfrentado por Danielle Silva, 34 anos, das 7h às 12h30. O espaço onde fica é pequeno, talvez claustrofóbico, ora em pé, ora sentada, “por conta da circulação sanguínea”. Durante as cinco horas e meia de trabalho como ascensorista, um intervalo de 15 minutos para ir ao
banheiro e só, já que o fluxo de pessoas no prédio da Prefeitura do Recife é ininterrupto. Gente que nunca se viu ou que, todos os dias, manda apertar o oitavo andar. Acima, a câmera de segurança devidamente localizada vigia o ascensor.

“Tem gente que entra e nem fala nada, parece que não me enxerga”, queixa-se. Há dias em que Danielle passa mais de uma hora em silêncio, à espera de um “Olá”. “Às vezes eu paro e resmungo, mas sei que dali a pouco alguém vai entrar e vai me cumprimentar”. O silêncio forçado incomoda a moça, que adora
lidar com o público, sempre com um sorriso no rosto. Quando surge a oportunidade, vai e agarra os apressados, porém valiosos, cumprimentos. Às vezes termina servindo de ouvido para o divã alheio, quando desconhecidos escolhem a moça do elevador para uma terapia vertical. “Pessoas que eu nunca
vi, mas que ficam puxando papo até o andar chegar”, diverte-se, enquanto usa um livro para abanar o calor e sintoniza a rádio FM para o público.

Um dos maiores efeitos da personificação é a sensação de reconhecimento do trabalhador, aponta Aécio Matos, professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que enfoca as relações de trabalho num cruzamento entre a sociologia e a psicologia. Em conversa com Aurora, ele
afirma que o reconhecimento deve vir em três vias e costuma falhar justo quando o trabalhador parece invisível, pois ele é automatizado. “Quando não há ‘Bom dia’, o reconhecimento de direito, aquele do respaldo jurídico, e o reconhecimento da efetividade da função (da consolidação de direitos trabalhistas, por exemplo) são facilmente identificáveis, mas o reconhecimento afetivo é ausente”.

O fato é que, de acordo com Aécio, carteira assinada não assegura propriamente uma identidade a quem quer que seja. A regularização profissional sem reconhecimento afetivo transforma o trabalhador em simples cumpridor de funções, o que o professor acredita ser tendência geral na sociedade contemporânea. A universalização das funções e a anulação do sujeito seriam, sobretudo, um entrave presente nas grandes cidades. “Alguém, por acaso, estabelece uma relação próxima com o piloto de uma aeronave? Ele está ali
responsável pela vida de centenas de pessoas, mas só ouvimos sua voz. Não há mais esse tipo de vínculo”. Mesmo assim, sua função é legitimada e valorizada à medida em que é menos “diluída”. “A tendência da massa é ser invisível. O número de profissões invisíveis é assustador. Motoristas, ambulantes, prestadores de serviços. Na maioria das funções, a identidade não é reconhecida pelos usuários”.

Já Tania acredita que o dilema da sociedade capitalista permanece sendo o da diferença, e é isto que determina que as pessoas sejam vistas ou não. “Existe uma divisão muito clara entre trabalho e labor. O trabalho diz respeito à produção intelectual e o labor, ao automatismo de algumas funções. As profissões de labor são, na verdade, as profissões invisíveis”.

A maldição do uniforme

Para muitos, a discussão ainda recai sobre o bode expiatório icônico, figurino que explica quem (não) são Irandhir, Hermila, João e Michelle: o famigerado uniforme. “Sua função pode até não ser esta, mas seu efeito anula a identidade individual construída com o cliente”, provoca Aécio sobre o fardamento. Como as camareiras que encontramos em um hotel cinco estrelas do Recife visitado por Aurora. É sob o tecido de corte padronizado que, nos corredores, elas devem dar o primeiro “Bom dia”, sempre antes dos hóspedes. Assim foram orientadas as 27 mulheres que integram o quadro da empresa. Mas nem todos respondem à gentileza instruída. “Fico chateada, mas depois passa”, conta Conceição Rodrigues, 36 anos, na função há 12.

Antes de trabalhar à beira-mar de Boa Viagem, fazia a limpeza das suítes de um motel na Avenida Recife, quando já sentia estar coberta por um manto da invisibilidade, coisa de filme de fantasia. “No motel, eu só aparecia na hora de levar a conta, não circulava tanto. Aqui, fico o tempo todo no corredor, mas mesmo assim tem gente que não me vê”.

Conceição segue transparente pela área comum, a primeira parada obrigatória de sua rotina diária. Polimento nos cinzeiros, varredura nos tapetes, pano nos móveis, manto no corpo. Ao terminar, permuta entre os 17 apartamentos que deve pôr em ordem, caso o “Não perturbe” não tenha sido acionado. Passe livre, ela
tem acesso discreto à intimidade de hóspedes, que muitas vezes nunca a viram antes. “Pode ter ouro em pó no quarto, mas eu não mexo. Entro, arrumo e saio”. O uniforme garante a segurança e a confiança para quem as mantém anônimas.

Aos olhos de Fernando Braga da Costa, o fardamento é vestimenta que demoniza, a que se opõe ferrenho em seu livro e chama de “signos de rebaixamento social”. “Quem veste é um qualquer e às ordens de todos que não o vestem”, afirma. O professor de Administração da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Allan Claudius Queiroz prefere a cautela e problematiza: “Ideologicamente, o uniforme pode descaracterizar o indivíduo enquanto sujeito mas, pelo lado da empresa, significa a funcionalidade oriunda de uma padronização, o que reduz custos operacionais e o dispêndio do empregado com vestuário”. O ponto de vista técnico é ressaltado por Tania, que lembra que, em alguns casos, o uso do fardamento é necessário por questões de segurança e gestão dos profissionais.

A grande ironia é, no entanto, sugerida por Aécio: vistas ou não vistas, as camareiras terminam invertendo a relação de poder. “O hóspede pode fazer tudo no seu apartamento, mas a camareira desfaz o que o diferencia, anula as particularidades. A missão dela é deixar todos iguais”. E o público, todo igualzinho, às vezes acaba vendo. “Uma vez chegou uma mulher e me mandou fechar os olhos. Entregou um papel na minha mão. Quando abri, tinha uma nota de R$ 10”, diz Verlânio, funcionário do metrô. Ou Conceição, que se encontrou de novo na gentileza de uma hóspede. “Me senti valorizada. Ganhei um par de brincos de presente e ela ainda me deu um beijo e um abraço. Nunca imaginei uma coisa dessas”.

O gesto é bem-vindo para quem espera ter um valor estipulado no mundo. Como diz Tania Casado, “aquilo que nós achamos que somos é reforçado pelo olhar do outro. E claro que o papel social daquele que é observado vai influenciar este julgamento”. Se o outro não o reconhece, o profissional põe em xeque sua
importância social e se sente cada vez menos visto. Nunca troca o figurino.

Nossos agradecimentos: Hermila Guedes, Irandhir Santos, João do Morro e Michele Mello | Centro de Convenções de Pernambuco | Maquiagem: Cris Malta | Figurino: DAM Roupas Profissionais. Fotos: Alcione Ferreira/DP/D.A Press

                                                           

22, janeiro 2011

Homenagens, desfile e filme abrem a 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Ministra da Cultura entregou os prêmios aos homenageados. O evento vai até o dia 29 de janeiro

Gazeta do Povo, Caderno G, 22/01/2011

A 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes foi aberta na noite de sexta-feira (21) com desfile, homenagens e a pré-estreia mundial do filme “O Gerente”. O estilista Ronaldo Fraga foi convidado para comandar o desfile na abertura do evento.

Segundo ele, o cinema e a moda tem tudo a ver. “A moda está presente no cinema como a música. Tentei usar as roupas como uma forma de projeção. Foi um grande prazer participar da abertura da Mostra de Tiradentes’, disse o estilista.

A coordenadora da mostra Raquel Hallak disse que o evento já ocupa um papel importante no calendário audiovisual. “Este evento é uma manifestação da nova cultura. Ele tem o objetivo de enriquecer o debate audiovisual. Com a presença de pessoas importantes do meio e da Ministra da Cultura, o evento com certeza ganhou um papel importante no meio audiovisual’, disse.

Durante a abertura, a ministra da Cultura, Ana de Holanda, entregou o prêmio para os dois homenageados da noite, o ator Irandhir Santos e o cineasta Paulo Cezar Saraceni. No discurso, a ministra elogiou o trabalho dos homenageados e destacou a importância de eventos como a Mostra de Cinema de Tiradentes para o cinema nacional.

O filme ‘O Gerente’, do homenageado Paulo Cezar Saraceni, abriu as exibições. O filme, que teve sua pré-estreia mundial, traz no elenco nomes importantes do cinema brasileiro como Ney Latorraca, Joana Fomm, Letícia Spiller, Nelson Xavier, entre outros.

A 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes vai até o dia 29 de janeiro. Serão exibidos 134 filmes brasileiros em três espaços, Cine Tenda, Cine Praça e Cine Teatro. Toda a programação do evento é gratuita.

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Via Gazeta do Povo

                                                           

22, janeiro 2011

14ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Contramão, 22/01/2011

Teve início na noite de terça-feira, 21, a 14 Mostra de Cinema de Tiradentes. Ao todo, são aguardadas cerca de 50 mil pessoas, no ano passado , de acordo com a organização do evento, estiveram em Tiradentes 48 mil pessoas que prestigiaram as oficinas, pre-estreias e shows.

O grande destaque da primeira noite é a presença da Ministra da Cultura, Anna de Hollanda e as homenagens aos cineastas Paulo Cesar Saraceni e Irandhir Santos , que lança na mostra, seu novo filme “O Gerente”.

Com o tema “Inquietações Políticas” , a edição de 2011 traz filmes de grande repercussão entre o público, como “Tropa de Elite 2?, sucesso de bilheteria no Brasil, além de curtas e documentários de grandes cineastas nacionais e internacionais.

O Jornal Contramão acompanha os três primeiros dias de festival e traz, diariamente, novidades sobre as exibições e os bastidores.

Homenagens e pré-estréia marcam abertura da Mostra de Tiradentes

Ministra da Cultura, em seu primeiro compromisso oficial, abre o circuito de festivais do ano defendendo o cinema e a diversidade

Irandhir Santos, Anna de Hollanda e Paulo Cézar Saraceni

Irandhir Santos, Anna de Hollanda e Paulo Cézar Saraceni

A cerimônia de abertura da 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes foi apresentada pela atriz Dira Paes, no Cine Tenda, que convidou ao palco a Ministra da Cultura, Ana de Hollanda para abrir oficialmente a mostra enfatizando, em seus discurso, a diversidade cultural do povo brasileiro e a qualidade do cinema produzido no país.

O ponto alto da cerimônia, a homenagem ao cineasta carioca Paulo Cézar Saraceni e ao ator pernambucano Irandhir Santos, foi marcada pelo depoimento emocionado do pai do ator. “O meu moleque herdou do avô o gosto pelas artes”, revelou. Já Irandhir Santos, em seu discurso ressaltou a importância dos professores de ensino médio para sua formação como ator.

Paulo Cézar Saraceni, visivelmente emocionado, abordou a sua trajetória como diretor e frisou a importância do Cinema Novo para o Brasil, ainda nos dias de hoje. Os homenageados receberam das mãos da Ministra Cultura o Troféu Barroco.

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Via Contramão

                                                           

22, janeiro 2011

TIRADENTES 2011: Homenagens emocionadas e Saraceni ousado abrem mostra

Cineclick, 22/01/2011
Por Heitor Augusto

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Presença da recém-empossada ministra da Cultura Ana de Hollanda, discurso em defesa do cinema brasileiro, homenagens emocionadas, projeção de um Saraceni pé-na-porta e desenvoltura de Dira Paes como mestre de cerimônia foram alguns dos ingredientes da noite de abertura, sexta-feira (21/1), da 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Começou atrasado, mas, quando engatou, foi de vez, num clima gostoso – claro, dentro dos parâmetros de uma cerimônia de abertura de um festival. Alguns agradecimentos aqui, outros ufanismos dali – incluindo o Hino Nacional – e a cerimônia foi andando, com Dira Paes tropeçando em algumas palavras, mas com o bom humor necessário em situações assim.

“O Ministério da Cultura está aberto”, declarou Ana de Hollanda. Um cartão de visitas político para o começo de gestão. Veremos o que vai significar essa abertura nos próximos quatro anos no MinC e na SAV (Secretaria do Audiovisual), sob a nova gestão de Ana Paula Santana.

Homenagens

Duas gerações separadas por quase cinquenta anos foram as homenageadas na abertura da Mostra de Cinema de Tiradentes. O primeiro, Paulo Cezar Saraceni, cinema novista e de vanguarda, desaparecido na última década até ressurgir, para o cinema e para a vida, com O Gerente, projetado na abertura.

Do outro, Irandhir Santos, ator que mergulhou no cinema nos últimos quatro anos, trabalhando com Cláudio Assis (Baixio das Bestas), Karim Aïnouz e Marcelo Gomes (Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo), José Padilha (Tropa de Elite 2) e José Joffily (Olhos Azuis).

Saraceni já atravessou muitas fases do cinema brasileiro, desde a transformação do Cinema Novo e Marginal, a produção da boca, os sucessos de bilheteria dos anos 70, a inflexão dos anos 80, Retomada e o momento atual. “Eu não me interessava por cinema comercial”.

Irandhir nasceu no teatro, ainda no colégio, despertado por professoras. Tornou-se profissional em 2000 e entrou para o cinema com uma geração de cineastas pernambucanos em ascenção. “Quando a gente conta uma história da qual é próxima, creio que o nível de sinceridade é maior”, contou o ator ao Cineclick.

Numa mostra de cinema que prioriza a reflexão em cima da produção contemporânea, muito saudável a presença de um ator que surgiu há pouco e um diretor na estrada há muito.

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Adaptação de Drummond

Desta vez, Saraceni levou Carlos Drummond de Andrade ao cinema. O Gerente [foto] traz um respeitoso funcionário de um banco, Samuel (Ney Latorraca), que tem uma mácula em sua praticamente imacuda vida: ele gosta de morder dedos de senhoras.

Isso nos anos 50, quando a história se passa. Enquanto deixa seu desejo sádico aflorar, Samuel o aplica em uma série de lindas mulheres que atravessa seu caminho: Letícia Spiller, Anna Maria Nascimento e Silva, Djin Sganzerla e Adriana Bombom vivem as senhoras vitimadas pelo gerente mordedor de dedos.

Em O Gerente, quem comanda é o desejo. E Saraceni não pretende uma representação fiel da realidade, cinema-ilusão. Trata-se de realidade fílmica e a direção não aceita sonegar isso do espectador. Numa mise-en-scène um tanto Bressaniana (A Erva do Rato), seguimos o desejo de Samuel num filme ousado, com vozes narrativas paralelas e constante desmascarar de que se trata, apenas de um filme.

Importante que um cineasta de 77 anos ainda seja um inconformado.

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Via Cineclick

                                                           

22, janeiro 2011

14o. Tiradentes (2011) – Seminário Irandhir – Os cadernos do Irandhir

Cinema Escrito, 22/01/2011
Por Luiz Joaquim

na foto de Alexandre C. Mota, aparecem, da esquerda para a direita: Kleber Mendonça, Leo Lacca, Xico Sá, Irandhir, Eric Laurence, Cláudio Assis

na foto de Alexandre C. Mota, aparecem, da esquerda para a direita: Kleber Mendonça, Leo Lacca, Xico Sá, Irandhir, Eric Laurence, Cláudio Assis

O que esperar de um mesa de debate com o jornalista Xico Sá mediando os cineastas Eric Laurence, Leo Lacca, Kleber Mendonça Filho e Cláudio Assis? Humor, tiração de onda e propriedade nos argumentos. Foi o que acontece agora há pouco, no final da manhã, aqui na 14ª. Mostra de Cinema de Tiradentes, quando aconteceu seminário “Revelção contemporânea” a partir da homenagem que o evento faz ao ator pernambucano Irandhir Santos, presente também, claro, na tal mesa.

Abaixo um raio-x do conversar, quase sem edição de texto, e incluído interverção da platéia que lotou auditório do Centro Cultural Yves Alves. Acompanhe:

Xico pergunta a Irandhir: Ainda tem cinema em limoeiro? E qual emoçao de ver “Paixao de Cristo” no interior?

Irandhir: Ver a “Paixáo de Cristo”no cinema era o ponto crucial para a família chorar coletivamente. Visitei aquele cinema da cidade em todas as fases: para ver a “Paixao de Cristo”, ver “Os Trapalhões” e os “filmes educativo” (rindo). Mas falando sério, um professor meu, chamado Guimaraes, foi quem me disse, “vá fazer teste com Marcelo Gomes para estar no filme dele”. E hoje acho que a postura do ator no cinema parte de um princípio anterior, mais como um co-autor. Talvez o fato de eu pensar assim seja influencia dos diretores com quem trabalhei. O ator passa de puro interprete a co-autor

Xico para Eric Laurence: Como foi o encontro com irandhir?

Eric: Conheci na filmagem do “Azul”, e foi muito bom porque é bom estar com uma pessoa que quer chegar ao máximo.

Eric pergunta a Irandhir: Não temos escola de direçao de atores no pais, o diretor trabalha de forma intuitiva. Como você lida com isso?

Irandhir: Em “A Febre do Rato” (filme em montagem de Cláudio Assis com Irandhir atuando), meu personagem é um um poeta revolucionário que construía um jornal no quintal e ia pro centro do Recife. Eu perguntava ao Hilton Lacerda (roteirista): quem é esse cara? Hilton responde apontando com a cabeça para o Cláudio (Irandhir faz o gesto de Hilton e a platéia ri).
Eu criei artifícios , tenho um caderninho que anoto tudo. Isso me ajuda.

Eric para Irandhir: E quando o diretor atrapalha?
Irandhir: Não vou por esse princípio. Eu fico colado no diretor. E tento sondar, enxergar a maneira como ele quer contar a história.

Kleber Mendonça:
Não usava atores nos meus filmes. Aconteceu coisa nova com “O Som ao Redor” (filme em montagem de Kleber, com Irandhir atuando), porque meu filmes foram ganhando de certa forma um sentido de mais profissionalismo. Na verdade, eu sempre preferi trabalhar com não atores. O preconceito acabou com Irandhir em “O Som ao Redor”. Na verdade com quatro atores no meu filme: Maeve Jinkings, W. J. Solha, Gustavo Jahn e Irandhir me ensinaram uma coisa bonita, é bonito roubar uma cna de um não-ator, mas é igualmente lindo trabalhar com um profissional e vê-lo chegar numa pefeiçao de técnica que nao parece técnica, isso é o que é o bonito.
Eu nao queria trabalhar com Irandhir no “Som…”. Eu achava que o ator para o personagem tinha de ser misterioso e desconhecido como personagem é. Mas o Irandhir compreendeu tão bem o roteiro que numa conversa, quando falava desse roteiro, ele me ganhou fácil.
O Iranhdir se mudou pra setubal, bairro desinteressante onde moro. E isso mostra um pouco sobre ele.

Leo Lacca: O caderno de anotação de Irandhir é famoso, e aqui tá Amanda Gabriel que trabalhou no elenco de “O Som…” ele sabe do que tô falando. Mas, quando trabalhei com o Irandhir em “Décimo Segundo” foi quando o meu momento onde aprendi a dirigir atores. O filme era função dos atores. Estabeleceu-se ali uma relação de amizade, não tenho pretensão de ter com outro ator. Falava coisas pra ele que não falaria com outras pessoas. Em “O Som…” foi diferente, pois a história não partia de mim. Irandhir me impressionou ali com sua versatilidade.
O caderno dele gera coisa impressionantes. Numa cena, ele tremia a boca na hora certa, toda vez, e eu pensava: esse cara é foda!. Decidi perguntar a ele, como é que faz isso e ele nem sabia de que tremidinha eu tava falando. A entrega e coragem dele são impressionantes.

Eric: Como você sai dos personagens?

Irandhir: Da mesma forma que leva tempo pra entrar, demora pra sair. Agora que acontece as estreiaa dos filmes de dois anos atrás eu rodei, volto aos cadernos para falar dos personagens em entrevistas.

Nesse momento, já com mais de 40 minutos de debate, Xico Sá interrompe a fala de Iranhir para anunciar que Cláudio Assis tá chegando: Venha pra cá seu…. filho da puta.

Cláudio Assis, já acomodado a mesa:
Bom dia e desculpa, é que eu dormi na Pousada errada (risadagem no auditório). O motorista me pegou e levou pro Cine-Tenda (lugar onde filmes são exibidos), me lagou lá e fugiu (mais risadagem geral).
Eu comecei como ator de teatro, eu sabia que não era bom ator. Feio do que jeito que era eu percebi que só ia ganhar papel de dublê de defunto (mais risos). Aí comecei a dirigir teatro e sei que é ator é uma raça ruim. Pense numa peste ruim! (risos). Mas tive sorte, com todos atores que trabalhei. E trabalhei com atores de escolas diferentes. Dira Paes, Jonas Bloch, Everardo Pontes, É preciso cuidado pra conquistar eles, os atores. E como é difícil e prazeroso quando isso acontece pois elas te dão tudo, elas sáo você mais que você mesmo.
O Irandhir é animal, não tem juizo. Eu reprovei dois testes dele no “Baixio das Bestas”. (segundo filme com Irandhir). Os atores fazem tudo, eu só dirijo a munganga. Se eu pudesse botava nos créditos assim: “Diretor de Muganga: Cláúdio Assis”. (risos)

Da platéia, Amanda Gabriel, atriz e preparadora de elenco (que estudou na Universidade Federal de Pernambuco com Irandhir, e trabalhou com ele em “Amigos de Risco” – ADR – e em “O Som ao Redor”) comenta:
É impressinante como Irandhir se transforma em algo que ele não é. Na época de ADR eu sabia do caderninho, e perguntei a ele: posso olhar? Lá tinha uns desenhos e também tinha: “Joca (personagem de Irandhir no ADR) nao conheceu os pais. Joca cresceu vendo filmes do Charles Bronson. Joca tem a figura de Charles Bronson como pai”. Depois disso nunca mais quis ver o caderninho.

Irandhir: Em “A Pedra do Reino”, um psiquiatra nos deu palestra sobre o inconsciente. O caderninho passou a dormir comigo. Certa noite, num sonho, me veio a imagem do Quaderna, meu personagem na série. E eu acordei e fiz o desenho no caderno. Mostrei ao Luiz Fernando Carvalho (diretor da série) e ele disse que naquele momento, estavam pensando na imagem do Quaderna na fase velha. Ele gostou do desenho e chamou o maquiador, o figurante e montaram o velho Quaderna a partir do meu desenho.

Klebler: Você abraçou o rigor no estudo de seus personagens desde sempre ou descobriu há pouco tempo?

Irandhir: Foi por necessidade. No set de filmagem o tempo é menor e muito confuso
Foi um ato de defesa meu.

Kleber: Parece que você entra num transe. Entre o `ação` e o `corta`, você continua focado na próxima cena. O Solha, por exemplo, sai rápido do personagem após o `corta`, você não. E daí cria-se uma tensão no set de respeitar os dois jeitos.

Irandhir: No “Baixio…”, o personagem aparece muito bêbado e eu pensava, onde vou achar essa bebedeira?

Jornalista Marcelo Miranda, da platéia pergunta: Você valoriza a expressao do corpo
É o corpo que te projetou em “A Pedra do Reino”. Isso foi é fundamental. Como é sua noção do ator por inteiro e não so pelo rosto?
E como a experiência de trabalhar com a Globo, industrial?

Irandhir: Em “Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo”, foi uma experiência maravilhosa, sem minha ferramenta principal de trabalho, que é meu corpo. O desafio foi, atraves da voz, eu ter perna, braço e ter coraçao.

Cláudio pergunta: Onde você foi encontrar Zizo (personagem de “Febre do Rato”)?
Irandhir: Fui bucar o zizo no Recife e em tu (fala olhando para Assis). Foi diferente ali, porque você imprimiu no filme a improvisação. Tinha que captar a expressáo das pessoas. E foi revelador pra mim, pois passei a ver o Recife que nao conhecia. Foi linda por ter sido permeada por poesia.

Cláudio Assis: Zizo tá em “Febre do Rato” que é uma expressáo de Pernambuco. Serve pra quando você tá com tesão, querendo conquistar alguma coisa. Tá embevicido de uma vontade medonha. É também uma expressão que leva a idéia da leptospirose, mas me refiro no filme quando você tá azougado, que é quando você bebe cachaça com pólvora preta e limão (platéia cai na guargalhada). Você fica com o pau duro, a xoxota pulsando e o cu piscando.

Leonardo Mecchi, na platéia, jornalista na produção da Mostra de Tiradentes, pergunta:
É o fato de você ser um menino curioso que te faz querer descobrir o além do cinema?

Irandhir: Sou curioso e foi uma estratégia minha; no Recife náo tinha curso. E decidi, vou aprender fazendo, ficava atento a testes na cidade. E quando se está atrás das câmeras, ocorre algo entre o ser-humano e a máquina. Quando esse encontro acontece quero que a humanidade ultrapasse a máquina. Meu encontro é nesse sentido, para que o humano vença a máquina.

Kleber: Irandhir é o ator de cinema que entende de cinema

Cláudio fala, após ser acordado de seu cochilo por Xico Sá:
Eu trabalhei com ator em “Conceição”, curta de Heitor Dhalia. Aí o fotógrafo ficava me dizendo. “O foco tá pequeno, você não pode me mexer. Aí eu respondi… (Cláudio pára, dá pausa, e fica uma tensão no auditório, até ele reproduzir o que respondeu ao fotógrafo. Então ele solta): E por que me chamou? (risadagem de novo no auditório). Eu não sou ator. Eu vou mexer sim e você que venha atrás de mim.

Cláudio continua: Eu acredito em ator de verdade, que é minha extensão. Não acredito nos preparadores de elenco que passam dois anos. O ator é a minha vida. Passei 20 anos fazendo filme. Quem chama o roteirista, o fotografia para falar tudo com o ator é uma merda. E eu, vou fazer o que? Meu trabalho é qual? (e de voz já alta, Claudão grita): Ator é Irandhir, o resto foda-se.

Fim do debate, sob aplausos intensos e boa parte do auditório de pé.

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Via Cinema Escrito

                                                           

21, janeiro 2011

Misto entre renovação e experiência dá o tom da Mostra de Tiradentes (MG)

Correio Braziliense, 21/01/2011
Por Ricardo Daehn

Um equilibrado misto entre a vertente renovadora da linguagem cinematográfica e ideias propostas por realizadores experimentados no mercado cinematográfico brasileiro dá moldes à 14ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes (MG), iniciada hoje e desenvolvida por nove dias. Forte elo a aproximar o novo e o já estabelecido está cristalizado nas personalidades a serem homenageadas: o diretor Paulo Cezar Saraceni (um dos fundadores do cinema novo) e o ator Irandhir Santos, que, em três anos, colecionou personagens em 10 filmes nacionais. Saraceni prova a vitalidade artística, ao lançar na abertura do evento O gerente, uma obra inédita baseada em texto de Carlos Drummond de Andrade e que expõe esdrúxulo hábito do protagonista, dado a morder a mão de clientes. Atores do filme, Ney Latorraca e Joana Fomm se juntam aos diretores Julio Bressane e Zelito Vianna para compor um debate em torno da carreira de Saraceni, autor do clássico Porto das caixas (1962).

Outra confirmação do propósito de criar ponte com o passado se formata no debate Vozes da experiência, incorporado a seminário da Mostra de Tiradentes, num sinal de prestígio dos convidados Cacá Diegues, Geraldo Sarno e José Joffily. O reconhecido caráter de fórum para Tiradentes reacenderá em 12 debates, sob o programa Encontro com a crítica, o diretor e o público, entre os quais um dedicado à carreira de Irandhir Santos, integrado por diretores como Cláudio Assis e Kleber Mendonça Filho. Com pretensão de alcançar público superior a 30 mil pessoas e sob o estímulo da entrada franca, a Mostra de Cinema de Tiradentes programou 30 longas-metragens e 104 curtas, muitos deles a serem conferidos por convidados como os representantes do Festival de Locarno (Suíça), do Festival Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira (Portugal) e do Festival de Cannes (França).

A programação de amanhã revela a expressividade dos documentários (quase metade, na seleção), com a exibição de Leite e ferro, dedicado à maternidade de detentas; Avenida Brasília Formosa, que entrelaça a vida de anônimos em Pernambuco; Elza, uma celebração de Elza Soares, e Cortina de fumaça, que alarga o debate do cerceamento das drogas na maior parte do mundo. Entre os longas completamente inéditos, Enchente (de Julio Pecly e Paulo Silva) se projeta pela atualidade, no registro de desastre natural que, em 1996, matou 100 pessoas em Cidade de Deus (Rio de Janeiro). Noutra linha, dotada de ficção, a produção cearense Os monstros expõe o valor social da amizade.

Reflexões
Associados à proposta de uma análise mais detida para filmes (encerrada na Mostra Vertentes), os longas Solidão e fé (de Tatiana Lohman), debruçado sobre as particularidades de homens que compõem o universo dos rodeios no Brasil, e O último romance de Balzac — no qual Geraldo Sarno esmiuça reflexões em torno de um texto mediúnico atribuído a Honoré de Balzac — terão projeções na 14ª edição da Mostra de Tiradentes. Também saído da literatura (no caso, do poeta Paulo Leminski), Ex-isto é outro título contemplado na programação. O filme, que traz a assinatura experimental do mineiro Cao Guimarães, recria um abstrato encontro, em solo brasileiro, entre o pensador René Descartes e o príncipe e governador Maurício de Nassau.

Reconhecido pelo interesse na pluralidade de opiniões — com premiações pelo júri jovem (com estudantes universitários), pelo júri da crítica e por júri popular —, o evento na cidade histórica tem segmento (a Mostra Aurora) empenhado em apontar novos cineastas promissores, numa seleção que, este ano, alinha nomes que competiram em novembro passado no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, como Tiago Mata Machado e Marcelo Lordello. Nesse campo, a ficção Riscado compete com documentários como Santos Dumont — Pré-cineasta? e Remições do Rio Negro.

Uma amostra de fitas exibidas em festivais nacionais (como Gramado e Rio de Janeiro) e internacionais do porte de Roterdã (Holanda) é ofertada pela Mostra Olhares, com títulos como A alegria, O céu sobre os ombros e Malu de bicicleta. Outro destaque é Paranã Puca — Onde o mar se arrebenta (de Jura Capela), documentário que traça extenso painel arte pernambucana de 1930 até a atualidade. Em meio às oito mostras voltadas para curtas, a representatividade brasiliense está nas exibições de Braxília, Falta de ar, Entre vãos, Ratão, Eu não sei e Memória de elefante.

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Via Correio Braziliense