Brasília em Dia, 16/10/2010
Por José Guilherme
TROPA DE ELITE 2
Brasil, 2010. Direção/Co-roteiro: José Padilha. Elenco: Wagner Moura, André Ramiro, Milhem Cortaz, Irandhir Santos, Maria Ribeiro.
Estado de direito x “Estados” paralelos
Coincidindo com uma nova onda de assaltos, arrastões, trocas de tiros com as forças do Estado e disputas sangrentas pelo controle dos principais pontos de tráfico, colocando o governador recém-reeleito do RJ diante de uma verdadeira sinuca de bico, estreou 6ª feira, dia 08, em mais de 650 salas de cinema, Tropa de Elite 2, três anos depois do primeiro filme e enfocando os conflitos do agora tenente-coronel Nascimento, de um lado com a corporação militar a que pertence, de outro com sua ex-mulher e seu filho (a ação se passa quinze anos depois da primeira parte), ela casada com seu principal adversário político, um ativista de direitos humanos, ele, o garoto, envolvendo-se incidentalmente com drogas e com a polícia.
A história começa praticamente no mesmo plano onde o outro termina, com o Bope em plena ação, desta vez invadindo o complexo de Bangu I para conter um sangrento conflito entre facções criminosas rivais, depois que armas são introduzidas na ala de uma das facções, que logo invade a outra para provocar um massacre. O Bope entra no meio, com o capitão Mathias (Ramiro, que começou o primeiro filme como aspirante) chefiando o pelotão. Nascimento, da sede do Batalhão, comanda a operação pelo rádio, porém Mathias, numa hostage situation, se precipita e estoura os miolos do bandido (Seu Jorge) que apontava uma pistola para a cabeça do ativista Fraga (Santos, excelente). O capitão obedeceu rigorosamente o manual do Bope, mas contrariou frontalmente uma ordem direta do coronel Nascimento, que, por conta do incidente, perde o comando e é “promovido” a subsecretário de Segurança, enquanto Mathias é afastado do Batalhão, por “violação de direitos humanos”.
A partir daí, Nascimento, em cujas veias o sangue que corre é puro Bope, se vê numa situação delicada. Aproveitando sua nova posição na Secretaria, ele dota a tropa de elite, que é a sua vida, de recursos materiais e técnicos que lhe permitem esmagadora vitória sobre o narcotráfico. Mas a guerra contra o crime organizado não se esgota na visão ingênua de um militar de ação como Nascimento. Aos poucos ele percebe (e aprende), ao envergar terno e gravata e sentar atrás de uma mesa, que as engrenagens de um monstro indomável chamado “sistema” fazem mover-se interesses políticos, eleitoreiros e corporativistas que estão fora do alcance dele. O sistema tem vida própria. Pior: o sistema é conivente, chegando mesmo a tirar proveito da ação predatória de milícias que nascem, precisamente, no “vácuo de poder” deixado pela derrota do narcotráfico pelo Bope, e que são apoiadas por políticos influentes.
Supremo paradoxo: o Bope é tido por alguns como uma tropa de elite treinada para matar. Ao fazer o seu trabalho, ele perfaz um duplo papel, o de herói (para muitos) e o de vilão (para alguns). Ao sair de cena, esta é ocupada por bandidos duplamente piores que os meliantes, porque se escondem atrás da insígnia da lei para achacar bandidos e a população civil. É hora, então, de Nascimento começar a combater o sistema do qual, em última análise, faz parte, tentando destruí-lo por dentro. Tarefa inglória, quase impossível. É nessa hora que o coronel vê no antigo rival, agora deputado estadual, Diogo Fraga, um possível aliado (Fraga seria aqui o alter ego do deputado Marcelo Freixo, o parlamentar que conseguiu a instauração, na ALERJ, da “CPI das milícias”, mesma façanha alcançada por Fraga na história). No fim, a guerra de Nascimento contra o crime se desloca da polícia para a política, ou seja, uma simples troca de letras, mas com uma diferença crucial para todos os envolvidos.
Moura penetra fundo no papel, mostra-se contido, denso, tenso, em todos os momentos. Sua Nêmesis é Irandhir Santos, o brilhante ator de Olhos Azuis, Besouro, Baixio das Bestas, Cinema, Aspirinas e Urubus. O duelo entre eles, cada vez que se encontram, é inevitável, e dele sempre saem faíscas em alta tensão. Difícil dizer quem vence, se é que se pode falar em vencedores. Santos só não rouba definitivamente a cena porque Moura é aquele que, mais do que qualquer outro ator em que se pudesse pensar, faz a diferença ao encarnar Nascimento, o anti-herói atormentado desta tragédia grega que é o embate de titãs entre o Estado de direito e o “Estado paralelo” do crime organizado, do narcotráfico, da corrupção e das milícias. A presença cênica de Moura transformou-se em ícone para o cidadão comum. “Wagner Moura é um ator que pensa como diretor. Isso dá a ele o potencial de roubar a cena muito facilmente, porque ele entende o que aquela cena significa”, declarou o diretor José Padilha, em entrevista à Folha de São Paulo.
Tropa de Elite 2 mostra, com uma crueza que, apesar de possuir os dois pés na realidade, e mesmo tendo-se tornado lugar-comum no cinema nacional, ainda consegue chocar o espectador desavisado, que o conflito entre o Estado e o crime organizado é a nova roupagem, ampliada e inevitável, do milenar processo de seleção natural que separa os fracos dos fortes, permitindo que estes, num gesto de predominância, prevaleçam ao final como aqueles que ditarão as regras.
Ao final da projeção, os espectadores aplaudiram. Fico a me perguntar se isto aconteceu (e acontecerá) em toda Brasília, em todo o Brasil. Espero que sim. Torço nesse sentido. Afinal, já passou da hora de a sociedade civil, e os cidadãos ordeiros que a compõem, entenderem que o Estado não criou a violência que campeia na sociedade como marca registrada do banditismo. Que a violência do Estado é apenas uma resposta, pronunciada no mesmo diapasão da linguagem dos bandidos, ao desequilíbrio que a ação deles causa à tranqüilidade a que todo cidadão tem direito.
A cotação, por outro lado, não vai apenas para os méritos da obra cinematográfica e dos seus realizadores. Para além dos predicados estéticos e técnicos do filme, a cotação homenageia também a obra-denúncia que é Tropa de Elite 2, lembrando, neste particular, o trabalho de ativismo político do diretor francês Constantin Costa-Gavras, com seus filmes que sempre colocaram o dedo na ferida dos gravíssimos problemas políticos e sociais ao redor do mundo. A pergunta que não quer calar: o coronel Nascimento morre? Bem, a narração é em off, mas, como diz o próprio diretor, assista ao filme e confira, também, esse “pequeno” detalhe. 9/10.
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Via Brasília em Dia