janeiro 23 2011

Os cavaleiros existentes

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Na fábula de Italo Calvino, uma armadura vazia esconde o protagonista invisível. Na servidão contemporânea, o fardamento camufla a identidade de nossos heróis cotidianos

Diario de Pernambuco, 23/01/2011
Por Guilherme Carréra e Luís Fernando Moura

Seis vezes por semana, ele é um dos 2 mil garis que circulam na cidade do Recife, todos idênticos. Há 13 anos ingressa no serviço às 14h30 e só sai às 23h, quando quase não restaram rostos no centro da cidade. Os domingos de expediente, mensais, somam mais oito horas de jornada. Seu papel é, a cada turno de trabalho, transitar pela conturbada Avenida Conde da Boa Vista e retornar pela Rua Manoel Borba, coletando qualquer dejeto que encontre pelo passeio, além de esvaziar as menosprezadas lixeiras. Já criou costume: poucos verão seu nome através da opaca farda. Só ao chegar em casa ele vai se despir, olhar o canto que resta no espelho e enxergar um homem de 45 anos e diferente de todos os outros, batizado de José Rogaciano Leandro.

Não antes da viagem diária de volta, porém. O trajeto é o longo e último embate do papel como gari: custa cerca de uma hora até alcançar a residência em Pontezinha, no município de Cabo de Santo Agostinho. O funcionário permanece solitário, acomodado num canto do ônibus, enquanto os outros passageiros preferem seguir em pé a sentar ao seu lado, mesmo que aquele seja o último assento do corredor. Ninguém quer a companhia inóspita do homem do lixo.

Para contar a história de quase invisíveis como José, Aurora inverteu os papéis. Convidamos quatro artistas para posar para um ensaio fotográfico com as fardas que geralmente escondem quem as usa diariamente. A atriz Hermila Guedes aparece como camareira; o ator Irandhir Santos, como gari. Já o cantor João do Morro “incorporou” um ascensorista, enquanto a cantora Michelle Melo fez o papel de auxiliar de serviços gerais. Profissões que conhecemos bem, exercidas por gente que conhecemos pouco.

A nosso pedido, Hermila, Irandhir, João e Michelle emprestaram sua fama para chamar atenção para as caras que os uniformes costumam camuflar. E lembrar que, além do vestuário e mão de obra que geralmente nos limitamos a enxergar, existe uma rotina de infortúnios e alegrias. Vivida por profissionais como Conceição Rodrigues, José Rogaciano, Andeval Luiz Gonzaga e Danielle Silva, que talvez já tenham cruzado o seu caminho. Nesta edição, eles dividem seu dia a dia conosco. E posam ao lado dos artistas que os representam. Desta vez, sem farda. Como bem entendem a liberdade de ser quem se é. Os oito, famosos e
anônimos, são capa de Aurora neste domingo.

“tem gente que cospe quando passa pela gente”

No caso de José Rogaciano, mais de 40 mil olhares são desperdiçados por dia na Avenida Conde da Boa Vista. Na esquina com a Rua José de Alencar, onde a calçada hospeda a gigante loja Riachuelo e alguns fiteiros empilhados, ele estaciona com colegas para o lanche da tarde. “Às vezes, a gente ganha bolo, refrigerante”, conta. Antes do descanso, porém, faz pausa para falar com Aurora e afina o discurso com o colega Adriano Matias da Silva: “A gente tem dois benefícios. O primeiro é estar no trabalho, e não desempregado. O segundo é trabalhar todo dia pela própria cidade”. Repetir a trajetória diariamente é conhecer os ambientes de cor, entender o percurso das horas no centrão e, quem sabe, até fazer amigos. A maior dificuldade é o preconceito.

“Em tudo a gente é discriminado”, diz Rogaciano. É evento corriqueiro os passantes jogarem todo tipo de lixo ao lado dos funcionários. Mas esse é o exemplo mais brando. “Já me disseram: ‘Se eu não jogar no chão, você não tem trabalho’”, lembra Adriano. É daí pra pior: “Tem gente que cospe quando passa pela gente”, continua Rogaciano. “Ontem mesmo, uma mulher desviou de mim na Avenida Dantas Barreto e colocou a mão no nariz. Como se eu estivesse fedendo”. Reclamação? “Se for fazer, a gente vai terminar brigando com a
maioria”, diz, enquanto um transeunte joga uma bola de papel no lixo que ele carrega – e erra o alvo.

Os causos que atravessam o cotidiano de gente como Rogaciano e Adriano viraram parábola televisiva nos últimos anos. A história do psicólogo e professor universitário Fernando Braga da Costa promoveu a vida dos garis a espetáculo com happy ending quando a imprensa descobriu que o pesquisador, homem gabaritado da classe média paulista, vinha se vestindo com seus uniformes, a título de pesquisa, e enfrentando a rotina da profissão pelas vias paulistanas. O caso saiu no Fantástico, da Rede Globo, e foi publicada no livro Homens invisíveis: relatos de uma humilhação social (Editora Globo), no qual Fernando detalha e analisa a experiência de, por quase 10 anos, atuar com a limpeza da cidade, o que lhe empossou de um novo olhar político perante a sociedade. Você passa a se relacionar com pessoas e não com sujeitos profissionais”.

O texto segue seus passos ainda em 1994 até os primeiros anos da última década. Narra o estranhamento inicial por parte dos garis, que percebiam a presença de um intruso, bem como o transporte numa caçamba de caminhonete, como se os empregados fossem ferramentas, e o intervalo para o café, que bebiam numa lata de refrigerante partida ao meio. O narrador confessa, enfim, que naquele lugar aprendeu as coisas mais ricas da sua vida. Algo que José Moura Gonçalves Filho, seu orientador na Universidade de São Paulo (USP),
esmiúça no prefácio da publicação: “O que vemos e o que deixamos de ver, o regime de nossa atenção, é decidido segundo o modo como fomos colocados e nos colocamos em companhia dos outros”. Vestido de gari, Fernando não era reconhecido nem pelos colegas da universidade.

Por essas e outras lançou a tese do que chama invisibilidade pública, conceito no qual enquadra os profissionais que trabalham com limpeza. “Quanto mais subalterno o serviço e quanto mais mal remunerado é o sujeito, mais ele se torna invisível socialmente”, diz o psicólogo social a Aurora. “Na sociedade do trabalho, nós próprios somos confundidos com as premissas do nosso trabalho. Se você é identificado com as matérias que escreve, ele é identificado com o lixo que recolhe na rua. E nós não costumamos colher os detritos que deixamos pelo chão. Ou seja, quem trabalha com lixo está obviamente no pior lugar que poderia estar na sociedade”. A ideia chega a um extremo conceitual e treme as bases do próprio funcionamento democrático. “Você tem a sociedade se projetando ao longo da história, sempre fazendo uso da mão de obra dos trabalhadores pobres, sendo eles escravos ou não. De alguma forma, a classe hegemônica fabrica uma ideologia que faz com que a sociedade inteira acredite que, de fato, houve mudança, quando muitas vezes mudaram apenas alguns aspectos da servidão. O que os pobres conseguem conquistar é nada mais que a manutenção da própria sobrevivência, morando mal e comendo mal, e sem conseguir garantir outras chances a seus filhos”, afirma. “Existem avanços trabalhistas, mas parece que, se a medicina disser que podemos trabalhar 16 horas por dia, voltaremos à Revolução Industrial”.

Personificar dá medo

O que pode soar radical ganha ecos no que outros profissionais de limpeza pública, não muito longe da movimentada Boa Vista, confessam à reportagem. Na Estação Recife, que faz do bairro de São José ponto central de convergência das três linhas de metrô da Região Metropolitana, o funcionário Verlânio Neves
da Conceição, de vassoura em punho, reclama que “tem muito lixo”, enquanto varre, sem cessar, o imenso salão de acesso aos trens, cortado por passageiros apressados. São 15 minutos de silêncio e labor, até que o rapaz retorna e desabafa: “Quer saber mesmo? Se não tivesse lixo no chão, cortavam o quadro de
funcionários pela metade. E a gente, como ficaria?”

Andeval Luiz, que, aos 32 anos, é estrela da estação – garantem os colegas –, diz que “isso não é serviço para ninguém”. Prefere que, se for para jogar o lixo no chão, façam a sujeira na sua frente. “Assim eu estou vendo, é menos desrespeitoso. No começo você quer é brigar, mas depois vai entendendo que é assim mesmo que funciona, e não vai mudar”. Carpinteiro desistente, cultiva o sonho de partir dali pela rodovia, como motorista. “Mas, por enquanto, vou de trem. Só conheço o nome de três ruas da cidade”.

Quem faz a limpeza do metrô pernambucano se alterna para deixar as estações impecáveis, por isso o trabalho não cessa e as jornadas são cruzadas. Os empregados cumprem expediente de oito horas e folgam um dia a cada cinco, além de um domingo por mês. Ganham um salário mínimo e, por vezes, acumulam
empregos de ambulante ou zelador, como Severino Lopes dos Santos, que espera semanas para tirar uma folga simultânea dos dois locais de trabalho. “A gente gosta do trabalho porque é nosso emprego”, diz. Mas e do ofício? “Ruim com ele, pior sem ele”.

Não é que o ambiente profissional desagrade, pelo contrário. Enquanto almoçam um prato montanhoso de arroz, feijão e adjacentes, Severino e a colega Joseane Maria da Costa explicam que grupo coeso é sinal de bons ares. “A gente trabalha muito, mas se diverte, porque existe companheirismo. E quando a equipe é boa, é melhor”, diz a moça, que já recebeu lixo até na mão – “para você jogar fora”. Se o trabalho tem a sordidez da limpeza pública, os rostos costumam ser familiares no trajeto metroviário. Quem passa tem agenda
assinalada e ingressa nos mesmos horários. “Às vezes fazemos amigos. Tem até gente que chama pelo nome. E o “cliente” – enfatiza a relação – “está em primeiro lugar”. A coordenadora do Programa de Desenvolvimento de Carreiras da Fundação Instituto de Administração (FIA) e da Faculdade de Economia,
Administração e Contabilidade (FEA), da Universidade de São Paulo (USP), Tania Casado, afirma que a invisibilidade está profundamente vinculada ao que chama de desconexão social. “Se a pessoa acaba de varrer e alguém joga um papel na rua, é como se não visse o trabalho do outro, como se ele fosse nada”. Por
outro lado, a proximidade restaura a conexão entre duas pessoas a partir da personificação, ou seja, o movimento de mostrar ao outro, por sutilezas, o alguém que ele é. “Me parece que a não personificação é um mecanismo de defesa da sociedade. Se eu sei o nome do profissional de limpeza, é mais complicado
eu jogar o papel no chão”.

A novela do “bom dia”

O dilema do mais simples cumprimento é enfrentado por Danielle Silva, 34 anos, das 7h às 12h30. O espaço onde fica é pequeno, talvez claustrofóbico, ora em pé, ora sentada, “por conta da circulação sanguínea”. Durante as cinco horas e meia de trabalho como ascensorista, um intervalo de 15 minutos para ir ao
banheiro e só, já que o fluxo de pessoas no prédio da Prefeitura do Recife é ininterrupto. Gente que nunca se viu ou que, todos os dias, manda apertar o oitavo andar. Acima, a câmera de segurança devidamente localizada vigia o ascensor.

“Tem gente que entra e nem fala nada, parece que não me enxerga”, queixa-se. Há dias em que Danielle passa mais de uma hora em silêncio, à espera de um “Olá”. “Às vezes eu paro e resmungo, mas sei que dali a pouco alguém vai entrar e vai me cumprimentar”. O silêncio forçado incomoda a moça, que adora
lidar com o público, sempre com um sorriso no rosto. Quando surge a oportunidade, vai e agarra os apressados, porém valiosos, cumprimentos. Às vezes termina servindo de ouvido para o divã alheio, quando desconhecidos escolhem a moça do elevador para uma terapia vertical. “Pessoas que eu nunca
vi, mas que ficam puxando papo até o andar chegar”, diverte-se, enquanto usa um livro para abanar o calor e sintoniza a rádio FM para o público.

Um dos maiores efeitos da personificação é a sensação de reconhecimento do trabalhador, aponta Aécio Matos, professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que enfoca as relações de trabalho num cruzamento entre a sociologia e a psicologia. Em conversa com Aurora, ele
afirma que o reconhecimento deve vir em três vias e costuma falhar justo quando o trabalhador parece invisível, pois ele é automatizado. “Quando não há ‘Bom dia’, o reconhecimento de direito, aquele do respaldo jurídico, e o reconhecimento da efetividade da função (da consolidação de direitos trabalhistas, por exemplo) são facilmente identificáveis, mas o reconhecimento afetivo é ausente”.

O fato é que, de acordo com Aécio, carteira assinada não assegura propriamente uma identidade a quem quer que seja. A regularização profissional sem reconhecimento afetivo transforma o trabalhador em simples cumpridor de funções, o que o professor acredita ser tendência geral na sociedade contemporânea. A universalização das funções e a anulação do sujeito seriam, sobretudo, um entrave presente nas grandes cidades. “Alguém, por acaso, estabelece uma relação próxima com o piloto de uma aeronave? Ele está ali
responsável pela vida de centenas de pessoas, mas só ouvimos sua voz. Não há mais esse tipo de vínculo”. Mesmo assim, sua função é legitimada e valorizada à medida em que é menos “diluída”. “A tendência da massa é ser invisível. O número de profissões invisíveis é assustador. Motoristas, ambulantes, prestadores de serviços. Na maioria das funções, a identidade não é reconhecida pelos usuários”.

Já Tania acredita que o dilema da sociedade capitalista permanece sendo o da diferença, e é isto que determina que as pessoas sejam vistas ou não. “Existe uma divisão muito clara entre trabalho e labor. O trabalho diz respeito à produção intelectual e o labor, ao automatismo de algumas funções. As profissões de labor são, na verdade, as profissões invisíveis”.

A maldição do uniforme

Para muitos, a discussão ainda recai sobre o bode expiatório icônico, figurino que explica quem (não) são Irandhir, Hermila, João e Michelle: o famigerado uniforme. “Sua função pode até não ser esta, mas seu efeito anula a identidade individual construída com o cliente”, provoca Aécio sobre o fardamento. Como as camareiras que encontramos em um hotel cinco estrelas do Recife visitado por Aurora. É sob o tecido de corte padronizado que, nos corredores, elas devem dar o primeiro “Bom dia”, sempre antes dos hóspedes. Assim foram orientadas as 27 mulheres que integram o quadro da empresa. Mas nem todos respondem à gentileza instruída. “Fico chateada, mas depois passa”, conta Conceição Rodrigues, 36 anos, na função há 12.

Antes de trabalhar à beira-mar de Boa Viagem, fazia a limpeza das suítes de um motel na Avenida Recife, quando já sentia estar coberta por um manto da invisibilidade, coisa de filme de fantasia. “No motel, eu só aparecia na hora de levar a conta, não circulava tanto. Aqui, fico o tempo todo no corredor, mas mesmo assim tem gente que não me vê”.

Conceição segue transparente pela área comum, a primeira parada obrigatória de sua rotina diária. Polimento nos cinzeiros, varredura nos tapetes, pano nos móveis, manto no corpo. Ao terminar, permuta entre os 17 apartamentos que deve pôr em ordem, caso o “Não perturbe” não tenha sido acionado. Passe livre, ela
tem acesso discreto à intimidade de hóspedes, que muitas vezes nunca a viram antes. “Pode ter ouro em pó no quarto, mas eu não mexo. Entro, arrumo e saio”. O uniforme garante a segurança e a confiança para quem as mantém anônimas.

Aos olhos de Fernando Braga da Costa, o fardamento é vestimenta que demoniza, a que se opõe ferrenho em seu livro e chama de “signos de rebaixamento social”. “Quem veste é um qualquer e às ordens de todos que não o vestem”, afirma. O professor de Administração da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Allan Claudius Queiroz prefere a cautela e problematiza: “Ideologicamente, o uniforme pode descaracterizar o indivíduo enquanto sujeito mas, pelo lado da empresa, significa a funcionalidade oriunda de uma padronização, o que reduz custos operacionais e o dispêndio do empregado com vestuário”. O ponto de vista técnico é ressaltado por Tania, que lembra que, em alguns casos, o uso do fardamento é necessário por questões de segurança e gestão dos profissionais.

A grande ironia é, no entanto, sugerida por Aécio: vistas ou não vistas, as camareiras terminam invertendo a relação de poder. “O hóspede pode fazer tudo no seu apartamento, mas a camareira desfaz o que o diferencia, anula as particularidades. A missão dela é deixar todos iguais”. E o público, todo igualzinho, às vezes acaba vendo. “Uma vez chegou uma mulher e me mandou fechar os olhos. Entregou um papel na minha mão. Quando abri, tinha uma nota de R$ 10”, diz Verlânio, funcionário do metrô. Ou Conceição, que se encontrou de novo na gentileza de uma hóspede. “Me senti valorizada. Ganhei um par de brincos de presente e ela ainda me deu um beijo e um abraço. Nunca imaginei uma coisa dessas”.

O gesto é bem-vindo para quem espera ter um valor estipulado no mundo. Como diz Tania Casado, “aquilo que nós achamos que somos é reforçado pelo olhar do outro. E claro que o papel social daquele que é observado vai influenciar este julgamento”. Se o outro não o reconhece, o profissional põe em xeque sua
importância social e se sente cada vez menos visto. Nunca troca o figurino.

Nossos agradecimentos: Hermila Guedes, Irandhir Santos, João do Morro e Michele Mello | Centro de Convenções de Pernambuco | Maquiagem: Cris Malta | Figurino: DAM Roupas Profissionais. Fotos: Alcione Ferreira/DP/D.A Press

setembro 14 2010

A poesia marginal do cineasta Cláudio Assis

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Diretor pernambucano iniciou as filmagens de seu terceiro longa-metragem. Febre do rato pretende mostrar um lado mais lúdico de Recife e Olinda através de um poeta de rua

Jornal do Commercio, 02/09/2010
Por Diogo Guedes / Especial para o JC

Na última terça-feira, as quase 50 pessoas reunidas no lado de fora do cemitério de Guadalupe, em Olinda, atestavam: algo importante acontecia ali dentro. Entrando, era fácil entender. O local era o cenário do primeiro dia de gravação do novo longa do cineasta pernambucano Cláudio Assis, Febre do rato. Do lado de fora, a expectativa era ver os dois atores envolvidos na cena, Matheus Nachtergaele e Nanda Costa, a Soraia da novela Viver a vida, que fazem parte de um elenco que ainda conta com Irandhir Santos, Ângela Leal, Maria Gladys, Conceição Camarotti e até mesmo o pianista Vítor Araújo.

Na locação, Cláudio e sua equipe organizavam a cena. Enquanto conversava com Matheus e Nanda sobre a interpretação, os últimos preparativos eram feitos. Dois ensaios e quatro tomadas depois, com pequenos ajustes e contribuição do silêncio dos curiosos lá fora, Cláudio encerrou o dia de gravação feliz.

“Essa cena aqui da capela é uma das últimas sequências do filme, já é perto do fim. É engraçado, porque hoje começamos filmando na praia, um local cheio de vida, e terminamos no cemitério”, contou Cláudio, logo após encerrar o trabalho do dia. Definindo Febre do rato como uma obra mais lúdica do que os polêmicos Amarelo manga e Baixio das bestas, o diretor ainda não adianta muito sobre o enredo. Segundo ele, o filme é a história de Zizu, um poeta marginal que enxerga o mundo como uma criação sua. “Esse filme é provocante como os outros dois, mas ele vai mostrar que as pessoas têm que ser como são, e não seguir padrões de outras pessoas. Só assim elas dão certo”, explicou o cineasta.

De bom humor, Cláudio não escondia a satisfação de ter ultrapassado as expectativas de gravação do dia. “Estamos adiantados porque o Cláudio foi genial hoje pela manhã. Em uma tomada, ele resolveu a cena na praia, que deveria ocupar o dia todo. Tivemos que correr para deixar pronta a segunda locação”, contou a assistente de produção executiva Samantha Ribeiro.

Um das preocupações do diretor é com o orçamento, estabelecido em 2,2 milhões. “O dinheiro é pouco, então temos que apertar ao máximo os dias e as gravações”, admitiu. A previsão é de que as filmagens aconteçam em Recife e Olinda até a primeira semana de outubro.

Acostumado a observar o lado sujo de personagens e locais, Cláudio não crê que será difícil encontrar o lado lúdico das duas cidades, sua proposta na obra. “Nós estamos também criando essa beleza. Como é sobre um poeta, o filme vai ser ficção o tempo todo”, pontuou.

Depois de terminar a cena, Matheus falou um pouco sobre Pazinho. “Ele é um coveiro casado com uma travesti, Vanessa. O relacionamento dos dois é complexo, até porque Pazinho a trai com mulheres e sai para bordéis. Mas Zizu, o poeta, gosta muito de estar com ele por sua sensibilidade, doçura e abertura para a poesia”, descreveu o ator paulista, que trabalhou em todos os longas de Cláudio.

Já Nanda interpreta a adolescente Eneida, personagem, segundo ela, de muita atitude. “O trabalho do Cláudio eu já adorava. Quando vi a equipe que ia trabalhar com ele, fiquei muito animada”, afirmou a atriz. Segundo ela, a personagem só adquiriu o tom necessário um dia antes de começar as filmagens.“Até ontem eu não estava satisfeita. Eu sentia que estava falando algo para a personagem. Então, percebi que tinha algo sobrando e pensei em cortar o cabelo bem curto. Falei com a equipe de figurino e, ainda bem, deu tudo certo”, confessou.

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Via Jornal do Commercio (Área restrita para assinante)

julho 22 2010

Irandhir Santos com Leila Farias e Walter Leite

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Foto de Irandhir Santos na coluna de João Alberto, no caderno Viver do Diário de Pernambuco do dia 22 de julho de 2010.

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Link para a nota no Diário de Pernambuco

maio 10 2010

A hora de Irandhir Santos

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Ator pernambucano que, ainda este mês, chega aos cinemas do país em três longas-metragens, admite que a fama assusta um pouco, mas é inevitável

Diário de Pernambuco, 09/05/2010
Por André Dib

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Fato inédito em sua carreira, o ator pernambucano Irandhir Santos está no elenco principal de três longa-metragens que estreiam nos cinemas brasileiros ainda este mês. Prova de versatilidade, ele está em cartaz com três personagens díspares: em Olhos azuis, de José Joffily, ele vive o emigrante Nonato, vítima da truculência do departamento de imigração norte-americano; em Viajo porque preciso, volto porque te amo, de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, Irandhir é o geólogo José Renato, que parte em viagem por um sertão existencial; e em Quincas Berro d’Água, de Sérgio Machado, ele é Cabo Martim, um bêbado de rua, convicto em oferecer ao amigo falecido uma despedida à altura.

Não bastasse, ainda em 2010, assistiremos Irandhir em um dos papéis principais de Tropa de Elite 2, de José Padilha; ao lado de Fernanda Montenegro, Wagner Moura, José Wilker, Stênio Garcia e João Miguel na refilmagem de A hora e a vez de Augusto Matraga; e em O Senhor do Labirinto, que dramatiza a história deBispo do Rosário. O ator também está escalado para as filmagens de A febre do rato, do pernambucano Cláudio Assis, ao lado de Maria Flor e Matheus Nachtergaele.

A fama iminente assusta um pouco, confessa o ator, mas se tornar um rosto conhecido é algo inevitável nesse momento. “Isso me preocupa um pouco. Até agora, o anonimato tem me ajudado nos trabalhos, pois me permite transitar em papéis diferentes”, diz Irandhir, que em Tropa de Elite 2 interpreta o antagonista do Coronel Nascimento, o deputado Diogo Fraga.

“Ele é ligado aos direitos humanos, é a voz que diz ‘não’ à política de segurança vigente no Rio de Janeiro. Para ele, o tráfico é um obstáculo, mas a polícia também é um problema a ser considerado”. Para compor o personagem, Irandhir buscou inspiração no trabalho do deputado Marcelo Freixo (PSOL), sem saber que o próprio participou com Padilha da concepção do roteiro. “Ele desenvolve um trabalho fantástico, abriu a CPI das milícias, que indiciou mais de 200 pessoas, inclusive vereadores e deputados.E encara as consequências disso, é ameaçado de morte. Tive oportunidade de ir com ele ao Bangu 1 e, entre presos e policiais, a reação de respeito foi a mesma”.

Irandhir aceitou o papel após perceber que a continuação do filme é uma nova história, diferente do tom belicoso estabelecido na primeira parte. “Com o convite, me perguntei se isso não ia se repetir. Acho excepcional a maneira como Padilha conduziu Tropa de Elite, só que o filme repercutiu o Bope como única forma de resolver aquilo tudo. Mas quando li o roteiro, vi que era outro filme, tão forte quanto o primeiro filme e ao mesmo tempo esclarecedor sobre os pontos que ele levanta. Acho que era necessário alguém para dizer não a tudo aquilo e quem faz isso é o meu personagem”.

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Link da matéria no Diário de Pernambuco